Título: Crise ética nas empresas
Autor: Ciro Torres*
Fonte: Jornal do Brasil, 29/09/2005, Outras Opiniões, p. A11

Há meses que a crise política e o chamado ''escândalo do mensalão'' são o assunto principal da imprensa e dos debates que analisam a conjuntura do país. Os milhões de reais que foram movimentados no ''mercado paralelo'' e nas brechas do sistema financeiro para garantir a compra de parlamentares, ''caixa 2'' de campanhas e o enriquecimento ilícito de alguns - que vieram à tona neste governo - obviamente não são criações novas. Desvios de conduta na área pública vêm servindo aos interesses de diversos grupos e partidos políticos há bastante tempo.

A mídia tem divulgado amplamente o nome de partidos e pessoas que se beneficiaram por estes esquemas. As denúncias e acusações têm recaído na conta dos ''políticos'', do ''congresso corrupto'' e do ''governo'', sempre de forma a escancarar a falta de ética na política. Contudo, raramente nos deparamos com acusações ou denúncias sobre os corruptores. E uma pergunta parece sempre ficar no ar: e quem corrompe, não interessa?

Conhecemos sim os operadores e operadoras - estes lobistas e mafiosos que utilizam nomes fantasia de ''empresário'', ''publicitário'' ou ''doutor'' fulano de tal. Sabemos da falta de ética de alguns parlamentares e governantes e já erguemos - pela segunda vez - a bandeira da ética na política. Não estaria na hora de levantarmos, com mais força, a bandeira da ética nas empresas?

A lista de grandes e conhecidas empresas públicas e privadas envolvidas nas denúncias é extensa - basta observar o noticiário. E não é necessário colocar neste rol as neo-famosas siglas e nomes de ''empresas'' que até outro dia eram ilustres desconhecidas. Estamos falando de grandes bancos, empresas de telefonia, fundos de pensão, siderúrgicas e outras corporações de renome nacional e internacional.

Muitas vezes torna-se fácil colocar toda a crise na ''conta'' dos políticos, partidos e em determinadas esferas do Estado, que já possuem um estigma por parte do senso comum de que ''lá em Brasília é tudo assim mesmo''. Mas e o setor privado? O mundo das empresas? Estes, sem dúvida, carregam a boa fama da eficiência. Nem sempre é fácil questionar ou colocar sob suspeição quem anda ''carregado'' de pré noções e pré concepções positivas. Tal exercício, neste momento, é necessário e urgente.

O que também está sendo noticiado nos últimos meses é o envolvimento de grandes empresas em ''caixa 2'' de campanhas eleitorais e o pagamento de propinas regulares a parlamentares e governantes. E nem sempre conseguimos enxergar este fato. Sem contar a relação promíscua entre determinadas empresas e o Estado, influenciando em decisões estratégicas de interesse público e na própria mudança da legislação. A tudo isso, poderíamos denominar como um processo de privatização do interesse público, que vem ocorrendo intensamente no Brasil dos últimos 15 anos.

É interessante notar, porém, que ao mesmo tempo, o paradigma da gestão empresarial vem deslocando-se de um monolito econômico e financeiro para um tripé que coloca toda tomada de decisão de frente para importantes aspectos e impactos ambientais, sociais e humanos. Muitas empresas vêm adaptando-se a esta nova tendência de gestão social e ambiental responsável, que pode, a médio e longo prazos, também apontar para uma maior fiscalização e controle social sobre as ações internas e externas realizadas no âmbito empresarial. Contudo, a ética deve ser, necessária e fundamentalmente, a base de todas estas práticas.

A crise recente nos mostra - mas necessitamos de coragem para ver - que a ligação automática da noção de Estado à corrupção e a do setor empresarial à agilidade e competência pode ser bastante enganadora. Sem ética, transparência e participação tanto no Estado quanto nas empresas, não será possível mudar nada, construir um novo mundo ou mesmo ter esperança. Nem no público, nem no privado.

*Coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e professor do IAG/PUC-Rio.