Valor Econômico, v. 20, n. 4887, 26/11/2019. Brasil, p. A8

Rio cresce, mas o desemprego persiste

Bruno Villas Bôas


Apesar de a economia fluminense ter voltado a crescer neste ano, a taxa de desemprego segue em trajetória de piora na região metropolitana do Rio e atingiu nível recorde no terceiro trimestre. Especialistas culpam a persistente crise fiscal estadual para o atraso na recuperação em relação à média nacional, assim como a falta de confiança dos empresários para retomar contratações.

Dados do Índice de Atividade Econômica do Banco Central mostram que a economia fluminense voltou a crescer no início do ano, após 15 trimestres sem resultados positivos. A atividade local avançou 0,2% no primeiro trimestre, seguida de altas de 0,3% e 4,1% nos dois trimestres seguintes, sempre na comparação ao mesmo período de 2018.

“A boa notícia é que a economia passou a ter recuperação, especialmente no terceiro trimestre, o que pode ter relação com a produção de petróleo e gás. A notícia ruim é que a economia segue 4,9% abaixo do pico histórico de 2014 e o desemprego não cede”, diz Marcel Balassiano, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

No terceiro trimestre, a taxa de desemprego da região metropolitana do Rio chegou a 15,4%, a maior da série histórica, iniciada em 2012, segundo dados dessazonalizados pela consultoria Tendências. Dados do IBGE mostram que a taxa no Estado do Rio estava em 14,5% no terceiro trimestre, acima da média nacional (11,8%) e mesmo do Nordeste (14,4%), historicamente mais alta.

Na semana passada, o Ministério do Trabalho mostrou o fechamento líquido de 9.942 postos formais no Estado do Rio em outubro, o pior desempenho entre as 27 unidades da federação.

Fatores bastante conhecidos estão por trás dos maus resultados dos últimos anos: a crise fiscal do Estado, os cortes de investimentos da Petrobras, o fim das obras para eventos esportivos, a crise das construtoras. É um quadro que mantém fragilizada a confiança de empresários fluminenses, segundo Jonathas Goulart, gerente de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

“Como o Estado está sem recursos para estímulos fiscais, a recuperação passa principalmente pelo setor privado. Isso torna o processo é mais lento, porque o setor privado depende de expectativas positivas para contratar”, afirma o economista da Firjan, citando como exemplo a atividade de serviços. “É o setor que mais fechou postos e, não por acaso, o que mais depende da renda para crescer. ”

A recente queda de braço entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador fluminense, Wilson Witzel, também não ajuda a melhorar as expectativas para o Estado, diz o economista Marcel Balassiano. De olho na disputa presidencial de 2020, Bolsonaro e o governador do Rio passaram de aliados a adversários.

“Não há lado positivo em ter essa briga. Mesmo sendo Bolsonaro do Rio, a política pode acabar se tornando um fator a mais de incerteza”, disse o economista.

Para Camila Saito, analista da Tendências, o mercado de trabalho do Rio pode ser ajudado mais à frente pela retomada da indústria de petróleo e gás, o que ainda não vem ocorrendo. “O impacto do setor no emprego vai ser pouco mais demorado, pois é um setor de capital intensivo. Deve impulsionar empregos mais para frente, como fornecedores de material, serviços”, acredita.

O economista e professor da UFRJ Mauro Osório diz que a superação do momento ruim passa por soluções estruturais, após décadas de um processo de fragilização econômica. Ele defende um planejamento econômico e busca por potencialidades. Também defende a revisão do pacto federativo. Segundo Osório, o Estado do Rio é o segundo maior

Produto Interno Bruto (PIB), mas sua receita pública estadual per capita é apenas a 11ª nacional.

“São isenções fiscais e o fato de o setor de petróleo e gás não gerar ICMS. Existe uma injustiça federativa com o Rio. Se os royalties do Rio de Janeiro forem retirados, vai ser uma loucura do ponto de vista social e econômico”, disse Osório, referindo-se à mudança nas regras dos royalties a ser analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).