Valor Econômico, v. 20, n. 4812, 10/08/2019. Brasil, p. A2
Brasil não precisa de verba da Alemanha, diz Bolsonaro
Renan Truffi
O presidente Jair Bolsonaro elevou o tom, ontem, nas críticas à Alemanha, depois de o governo do país europeu anunciar que vai suspender o financiamento de projetos para a proteção da floresta amazônica. A decisão dos alemães foi tomada com base em notícias sobre o aumento do desmatamento na região, que levaram à demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão. Em resposta, o presidente disse que "o Brasil não precisa" dessa verba e que, agora, a Alemanha não poderá "comprar a Amazônia à prestação".
"[A Alemanha] não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar à prestação. Podem fazer bom uso dessa grana, o Brasil não precisa disso", disse o presidente a jornalistas após concluir um passeio de motocicleta pela capital federal. Demonstrando irritação com o assunto, Bolsonaro foi evasivo quando questionado se essa notícia poderia abalar a imagem do Brasil internacionalmente. "Já dei minha resposta", rebateu. "Você acha que grandes países estão interessados na imagem do Brasil ou em se apoderar do Brasil?".
A informação sobre a suspensão do projeto foi noticiada pela "Deutsche Welle". De acordo com a publicação, a ministra do meio ambiente da Alemanha, Svenja Schulze, disse que a suspensão dos projetos pode significar um prejuízo de € 35 milhões, o que representaria aproximadamente R$ 155 milhões, provenientes de uma iniciativa para proteção climática do Ministério do Meio Ambiente em Berlim. O bloqueio dos recursos, entretanto, não atinge o Fundo Amazônia.
"A política do governo brasileiro na região amazônica deixa dúvidas se ainda se persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento", declarou a ministra ao jornal alemão "Tagesspiegel". Ela acrescentou ainda que, somente quando houver clareza, a cooperação de projetos poderá continuar.
Esta não é a primeira vez que Bolsonaro faz críticas ao governo alemão. Em junho, durante participação no G20, no Japão, Bolsonaro rebateu declaração da chanceler Angela Merkel, que havia classificado como "dramática" a situação do Brasil em questões ambientais e de direitos humanos sob o atual governo. "Nós temos exemplo a dar à Alemanha sobre meio ambiente", respondeu Bolsonaro. "A indústria deles continua sendo fóssil, vem parte do carvão. E a nossa não. Eles têm muito a aprender conosco", complementou.
O presidente também foi questionado sobre uma piora em alguns dos principais indicadores econômicos e sociais durante os seis primeiros meses de seu governo. Em resposta, sugeriu que a imprensa tratasse do assunto com o Ministério da Economia. "Pergunta para o Paulo Guedes, próxima pergunta", interrompeu. Acompanhado por seguranças, Bolsonaro foi do Clube da Aeronáutica e para dois pontos turísticos de Brasília. Também andou de jet ski rapidamente. Em uma das paradas, foi chamado de fascista por um grupo de pessoas e de mito por outro.