Título: Dirceu acusa mídia de colaborar em golpe branco
Autor: Fernando Exman
Fonte: Jornal do Brasil, 28/09/2005, País, p. A4

O ex-ministro da Casa Civil e deputado federal José Dirceu (PT-SP) afirmou ontem, em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que não há provas que justifiquem a cassação de seu mandato parlamentar. Citou por diversas vezes passagens dos depoimentos de outras pessoas envolvidas no escândalo de caixa 2 e mensalão que o inocentam para negar todas as acusações que pesam contra ele. O deputado também demonstrou indignação com a oposição e com parte da mídia, que, em sua avaliação, construiu uma versão para a crise política, age como um partido político, e desde que ele assumiu a Casa Civil, em 2003, tentou tirá-lo do cargo. - Não vou aceitar ser condenado politicamente - afirmou Dirceu.

Segundo o deputado, o julgamento político deve ser feito pelos eleitores e por seus companheiros de partido. Isso, caso tente se reeleger em 2006 ou se disponha a disputar algum cargo na direção do PT.

O ex-chefe da Casa Civil criticou parte da militância do PT, que, segundo ele, aceitou a versão da crise construída pela direita e pore parte da imprensa.

De acordo com o ex-ministro, a imprensa está fazendo uma cobertura ''tendenciosa'' exercendo o papel que deveria caber aos partidos políticos.

- Há em setores da mídia e da oposição uma tentativa de desestabilizar o governo e dar um golpe branco para que o presidente Lula não tente a reeleição e para que eu seja cassado - afirmou

Dirceu disse que está totalmente disponível, caso o Conselho queira elucidar qualquer dúvida sobre sua inocência. Demonstrou que está disposto a lutar pelo seu mandato até o fim.

- Não deixarei nenhuma questão sem resposta - ressaltou o parlamentar.

Mais uma vez, Dirceu disse que deixou de acompanhar o dia-a-dia do PT quando passou a servir ao governo Lula. O ex-ministro da Casa Civil negou que tenha participado da negociação de compra de votos de deputados e reiterou que o responsável pelas movimentações financeiras não contabilizadas e pelos empréstimos feitos pelo partido às empresas de Marcos Valério, acusado de ser o operador do esquema do mensalão, é o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.

- Não dei o aval e não tinha conhecimento - disse o deputado aos integrantes do Conselho de Ética da Câmara. Acrescentou que Delúbio e os dirigentes dos bancos Rural e BMG afirmaram que ele não sabia do caixa 2 do PT.

Dirceu disse também desconhecer - apesar de ser ex-presidente do PT e ter sido o coordenador da campanha de Lula à Presidência da República em 2002 - que Valério pagou dívidas que o PT tinha com o publicitário Duda Mendonça em uma conta no exterior. Ele assegurou, porém, que na campanha de Lula não teve dinheiro de caixa 2.

Dirceu justificou que, como coordenador, não acompanhava os detalhes de todas as áreas da campanha. Recebia informes diários que continham apenas informações gerais sobre a contabilidade.

O deputado afirmou que negociou o apoio político de partidos ao PT nas eleições presidenciais e nos estados em 2002, mas negou que essas conversações envolveram repasses de recursos.

Dirceu negou também que Marcos Valério tenha intermediado interesses de empresas e bancos com o governo ou que tenha representado os interesses do Planalto no exterior.