Valor Econômico, v. 20, n. 4848, 01/10/2019. Opinião, p. A12

Selic cai, crédito reage, mas bancos elevam os juros



Os bancos sempre sustentaram que preferem ganhar com um volume maior de operações de crédito do que cobrando juros elevados e tarifas caras. O Valor constatou, no entanto, que eles aumentaram as taxas cobradas dos clientes e não repassaram toda a redução do custo de captação proporcionado pelo corte da Selic em um momento em que o estoque de empréstimos registrou a maior alta do ano, em agosto, e a inadimplência estava relativamente estável. Com essa prática, engordaram mais as margens de lucro.

O Banco Central (BC) voltou a diminuir a taxa básica de juros em junho, depois de mantê-la inalterada em 6,5% ao ano por 11 meses. Desde então foram feitos dois cortes, que trouxeram a Selic para o patamar histórico de 5,5%. São claros os sinais de que haverá pelo menos mais uma redução até dezembro. A trajetória já foi antecipada pelo mercado futuro de juros, barateando o custo do dinheiro para os bancos. A remuneração que pagam para captar recursos caiu 1,1 ponto percentual entre maio e agosto, de 7,4% para 6,3% ao ano.

No mesmo período, porém, os juros médios cobrados nos empréstimos concedidos a empresas e pessoas físicas com recursos livres, em que as taxas são livremente pactuadas, recuaram apenas 0,6 ponto percentual, de 38,5% para 37,9% ao ano. Levando em conta as operações com crédito direcionado, a taxa média ficou em 25,1%, ligeiramente abaixo dos 25,2% registrados em maio. Algumas linhas ficaram bem mais caras. O crédito rotativo do cartão de crédito, por exemplo, saltou de 299,8% para 307,2% ao ano, entre maio e agosto. Como consequência, o spread médio subiu 0,6 ponto percentual, de 19,2% para 19,8%.

Quando se leva em conta toda a recente trajetória de redução da Selic, é preciso reconhecer que o tomador de crédito teve algum ganho. Desde o movimento de corte iniciado em outubro de 2016, quando a Selic estava em 14,25% ao ano, até os 5,5% atuais, a queda somou 8,75 pontos percentuais. No mesmo espaço de tempo, o juro do crédito livre caiu 16 pontos percentuais, de 53,8% para 37,9% ao ano.

Mas o que surpreende agora é o custo do crédito subir, apesar do aumento do estoque e das concessões, e de a inadimplência seguir estabilizada. O estoque de crédito aumentou 1,1%, a maior expansão mensal do ano, e atingiu R$ 3,33 trilhões, ou 47,2% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos 46,9% de julho. As concessões cresceram 5,3% e totalizaram R$ 16,3 bilhões, depois de terem encolhido 14,4% em julho. O crescimento do estoque teve a mesma intensidade tanto no caso das pessoas físicas quanto no das empresas. No acumulado em 12 meses, cresceu 5,1%, sendo 10,7% nas linhas para pessoas físicas, que compensaram o recuo de 1,5% das operações com empresas, causado principalmente pela menor atuação dos bancos oficiais, como o BNDES.

Estudo divulgada na Carta de Conjuntura do terceiro trimestre do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nota que a expansão do crédito para pessoas físicas coincidiu com o aumento do consumo das famílias no PIB até 2017. Desde então, porém, apesar de o crédito para as pessoas físicas ter continuado crescendo, o consumo parou de acompanhá-lo e até diminuiu. O estudo supõe que, com a estabilidade da renda em contexto de mercado de trabalho fraco, os empréstimos estariam sendo usados para manter o nível de consumo e não para aumentá-lo.

Já o detalhamento das novas concessões de crédito em agosto trouxe uma surpresa: o crescimento de 5,3% em relação a julho foi puxado principalmente pelo aumento de 25,3% das operações com empresas, enquanto os desembolsos para pessoas físicas aumentaram 3,6%. Mas os analistas do Instituto de Economia e Desenvolvimento Industrial (Iedi) não acreditam em reversão da tendência recente de perda do dinamismo do crédito a empresas, seja no livre ou no direcionado. Na comparação com o mesmo mês de 2018, as concessões registram queda em termos reais; e o estoque diminuiu 1,7% descontada a inflação, não repondo sequer os juros apropriados.

O enfraquecimento do crédito para as empresas é o principal motivo que levou o Banco Central a reduzir novamente a projeção de crescimento da carteira de crédito neste ano - a expectativa de aumento do estoque total de empréstimos caiu de 6,5% para 5,7%. O BC agora espera que o crédito a empresas tenha contração de 0,9%, após crescer 1,3% em 2018;  os empréstimos para as famílias aumentem 11%, acima dos 8,2% de 2018. Diante da expansão de apenas 2,1% acumulada neste ano até agosto, a nova previsão já parece otimista.