Título: Fantasma do mensalão desgasta Lula e o PT
Autor: Israel Tabak
Fonte: Jornal do Brasil, 02/10/2005, País, p. A4

É como se os pedidos públicos de desculpa do presidente Lula e os reiterados mea culpa do PT fossem letra morta. As redes nacionais de TV e os principais jornais registraram na semana passada cenas explícitas de métodos, usos e costumes que, nos últimos meses, se transformaram num escândalo nacional e diário. A sensação de que as confissões e arrependimentos, desencadeados pela denúncia do mensalão, foram apenas da boca para fora, se difundiu entre políticos, analistas e cientistas políticos, preocupados com os episódios que antecederam e eleição de Aldo Rebelo para a presidência da Câmara.

As avaliações convergem no sentido de que as escancaradas negociações entre o Planalto, o baixo clero e os envolvidos no mensalão afetarão ainda mais a imagem de Lula e do seu governo, com claras repercussões negativas no quadro da sucessão. O especialistas alertam que estão fora de discussão os formatos aparentes - negociações entre aliados, normais nas democracias - mas sim os métodos e as contradições da polêmica base de apoio escolhida pelo Planalto.

Há um complicador no processo, que torna a situação do governo ainda mais delicada: a cobertura maciça, pelas principais redes de TV, não só da vitória de Aldo Rebelo, como de todo o desenrolar do escândalo do mensalão, com uma supreendente audiência em todas as camadas da população.

- Este é o primeiro episódio significativo envolvendo o ''novo'' PT, ''refundado''. Agora não dá mais para botar a culpa em Dirceu, Delúbio ou Valério. Nem se pode dizer que Lula não sabia. O que constatamos? O ''novo'' PT agiu de forma ainda pior que o velho. E nem se preocupou com a fotografia - acusa o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

O cientista político Marcus Figueiredo, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), chama a atenção para as repercussões políticas dos processos de desilusão generalizada em relação aos governantes.

- A opinião pública está muito atenta e já deu sinais fortes desta desilusão. O comportamento eleitoral do passado tem fartos exemplos de que a tendência é não eleger de novo as pessoas consideradas responsáveis por episódios condenáveis. Isso aconteceu com os anões do Orçamento e com Collor, em tentativas empreendidas nas duas últimas eleições.

O diretor executivo da ONG Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, lembra o equívoco representado pela concepção de que mais um instrumento jurídico - o projeto de reforma política - por si só é capaz de solucionar vícios políticos e uma arraigada ''cultura da ilegalidade''.

- O superfaturamento de contratos de uma estatal, por exemplo, não vai ser resolvido com reforma política. O processo da reforma não pode servir de biombo, de uma borracha para apagar crimes do passado. Agora, com a desculpa de que se usou o caixa dois para pagar dívidas de campanha, muita gente vai posar de bacana, pregando a reforma, como se fosse uma panacéia. Com isso, se deixa de investigar a origem do dinheiro ilícito e de punir os responsáveis. O dinheiro e os implicados ficam assim ''lavados''.

Tanto Weber quanto Simon ressalvam a dignidade e a biografia do novo presidente da Câmara, mas admitem que sua posição é delicada diante das negociações de cargos e verbas que incluíram os envolvidos com o escândalo do mensalão.

- É triste ver as fotos de Rebelo rodeado por esses personagens - diz Abramo.

Pedro Simon confessa a surpresa com a reedição de métodos de sempre.

- Aconteceu uma sacudidela geral no país. Criaram-se três CPIs, cerca de 20 deputados foram investigados, diretores de importantes estatais demitidos, a cúpula do PT caiu e o novo presidente anunciou a refundação do partido. Eu imaginava que Lula iria bater na mesma e tomar providências para evitar a volta de todo aquele descalabro. Mas aconteceu o oposto.

As alternativas do Planalto não eram muito agradáveis, completa Marcus Figueiredo:

- Ou o governo se sujeitava a mais uma fragorosa derrota ou recorria ao vale-tudo para ganhar, mesmo pagando um preço alto.

O preço deste desgaste inclui métodos como o de descontigenciar o Orçamento - que não é invenção do atual governo - como lembra Claudio Abramo, mas nem por isso deixa de ser condenável.

- Deveria ser proibido contigenciar verbas e liberá-las apenas como moeda de troca, para negociatas políticas. Isso prejudica qualquer tentativa de seriedade no planejamento e resulta num descalabro econômico. Todo governo deveria ser obrigado a cumprir o que o Orçamento manda.