Título: Emprego em ponto morto
Autor: Samantha Lima e Rafael Rosas
Fonte: Jornal do Brasil, 02/10/2005, Economia & Negócios, p. A17
Depois de se assustarem com a desaceleração da economia ¿ refletida na queda da produção industrial e das vendas, em julho ¿ empresários e analistas renovaram o otimismo para o fim do ano. A redução na taxa de juros em setembro reacende a expectativa de que o ritmo de crescimento verificado no segundo semestre seja retomado ¿ embora não existam previsões de que se volte ao patamar de meados de 2004. Para os trabalhadores, porém, ainda não é momento de comemorar: a aceleração no ritmo das contratações só deve acontecer no início do ano que vem. O baixo otimismo no mercado de trabalho este ano se deve às contratações já realizadas no ano passado, em função da aceleração da economia no período. Em 2004, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas do país) foi de 4,9% e, para este ano, a previsão oficial aponta para uma expansão de 3,4%.
O setor industrial, grande força de geração de emprego formal, já vem contratando em ritmo bem menor do que o verificado em 2004.
¿ Viemos de um ano muito favorável ao emprego na indústria. Assim, manter o mesmo ritmo é difícil, o que é normal. As contratações estão ocorrendo mais para substituir mão-de-obra que sai ¿ explica Paulo Mol, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI). ¿ Este ano, os cargos eventualmente vagos já foram preenchidos. Claro que tudo vai depender da força com que cairão as taxas de juros.
A expectativa pode ser confirmada por setores considerados termômetros da atividade industrial, como o de embalagens. Trata-se de um segmento considerado termômetro da indústria. Para a Associação Brasileira de Embalagens (Abre), o mais importante, neste momento, é não haver expectativa de demissão.
¿ Fechamos o ano passado com criação de 167 mil vagas formais. O setor não demitiu ninguém até agora. Não sentimos que as fábricas de embalagens precisem aumentar a produção e acredito que isso não se modificará porque está em patamar elevado até 2004 ¿ afirmou Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Abre.
O setor de papelão ondulado é outro bom exemplo de como 2005 está aquém do ano anterior em termos de contratações. Normalmente, o terceiro trimestre é beneficiado pelo otimismo com as vendas de fim de ano, mas de janeiro a agosto a alta acumulada nas contratações é de apenas de 1,6%, segundo dados de empresas do setor, grande parte em função de embalagens para produtos exportados.
Para o economista Marcelo de Ávila, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o setor industrial, como um todo, terá aumento do nível de emprego este ano, embora em patamar inferior ao avanço de 2004. Para ele, a recuperação acontecerá de forma mais forte apenas no início de 2006, quando os efeitos da esperada queda de juros ¿ reduzida no mês passado em 0,25 ponto percentual, para 19,50% ao ano ¿ já serão mais intensos.
¿ No ano passado, o emprego cresceu mais. Só que a trajetória dos juros era de alta. Agora, as contratações são menos intensas, mas a trajetória dos juros é descendente e a confiança do empresário em contratar deve ser mais forte no começo de 2006 ¿ explica De Ávila.
Além de perspectivas melhores no mercado de trabalho serem vislumbradas apenas para o início do ano que vem, não são todos os segmentos que planejam ampliar seus quadros profissionais. A percepção é que o movimento será conduzido pelos segmentos que não acompanharam a expansão da economia ¿ notadamente aqueles que dependem da expansão da renda.
A fábrica de telhas e caixas d¿água Eternit não compartilhou a comemoração dos resultados verificada na maioria dos segmentos da economia em 2004. Este ano, porém, a empresa espera uma receita 40% superior à registrada no ano passado.
¿ O setor de telhas é bastante popular e reage imediatamente à expansão da renda. Não tínhamos um resultado desses desde 2002. Nos oito primeiros meses, em relação a 2004, aumentamos nosso efetivo em 12% e, no início de 2006, ampliaremos o efetivo em 10%. Contrataremos mais dentro da idéia de crescimento da empresa e da economia ¿ explica o gerente da fábrica no Rio, Rogério Renner.