Título: O ano em que o povo cansou
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 02/10/2005, Internacional, p. A10

Na maioria das escolas alemãs, o assunto nem sequer é mencionado. Em casa, muitos pais aderem ao silêncio. Não fossem iniciativas como o Arquivo do Movimento Civil em Leipzig e o Museu da Stasi (Polícia de Estado da antiga Alemanha Oriental) poucos saberiam da importância das manifestações populares no país, na década de 80, especialmente em 1989, ano da queda do muro. Tais reivindicações, hoje, são compreendidas como uma espécie de pontapé inicial para a reunificação.

- Muitas vezes, as informações não são passadas nas escolas e os pais têm um olhar específico sobre o tema: muitos eram da RDA. Então, há uma tentativa de apagar parte da história do país - lamenta Irmtraut Hollitzer, diretor do Museu da Stasi, ao JB.

O primeiro protesto foi em 7 de maio de 1989, dia das eleições municipais na Alemanha Oriental:

- Desde a instauração da RDA, foi a primeira vez que grupos civis resolveram regular as eleições. Perceberam que os resultados eram alterados em favor do Estado. A partir daí, comecaram as manifestações nos dias 7 de todo mês - explica o dramaturgo Michael Wildt.

Há 14 anos, Wildt atua também em outra área. No Arquivo do Movimento Civil em Leipzig, criado em 1991, mantém vivo registros do processo que seria decisivo na mudança de rumo do país. São cartazes, fotos, vídeos, artigos de jornais.

Um mês depois, em 7 de junho, outra manifestação. Ao redor da Igreja St. Nikolai, artistas reuniram a oposição ao regime comunista em um festival musical de rua. Por meio de shows improvisados, ao ar livre, pensavam que escapariam da censura. Longe disso. Caminhões da polícia chegaram a Leipzig, recolhendo os músicos à força.

- As pessoas se sensibilizaram e subiram voluntariamente nos caminhões - lembra Wildt, ressaltando que os manifestantes ficaram alguns dias presos e tiveram que pagar 8 mil marcos (cerca de 4 mil euros hoje) de fiança.

Em 7 de agosto, descontentes com o regime, civis burlaram os arames farpados que os separavam da Hungria e da Áustria e fugiram. A debandada mais representativa, no entanto, foi rumo a Praga. Mais especificamente, para a embaixada alemã. Segundo Wildt, 5 mil pessoas ocuparam a embaixada na esperança de que receberiam ajuda da parte ocidental.

Só 3 meses depois, já no fim de setembro, a Alemanha Ocidental conseguiu liberar os refugiados de Praga. Mesmo assim, com a condição de que a RDA teria seus passaportes confiscados. Em seguida, uma nova multidão ocupou a embaixada em Praga.

Na semana seguinte, no mesmo dia da comemoração dos 40 anos da RDA, 7 de outubro, 70 mil pessoas se reuniram em Berlim. Mas, desta vez, a polícia recuou, devido à quantidade inesperada de manifestantes.

Um mês antes da queda do muro de Berlim - que aconteceu em 9 de novembro de 1989 -, 400 mil manifestantes acenderam velas em torno da antiga sede da Stasi.