Título: ''Já dei minha contribuição''
Autor: Kelly Oliveira
Fonte: Jornal do Brasil, 03/10/2005, Economia & Negócios, p. A17

Ainda falta pouco mais de um ano para o fim do governo, mas o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, já tomou uma decisão: não aceitará a missão de comandar a pasta por mais quatro anos, no caso de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser eleito para um novo mandato. Rodrigues se diz frustrado por não ter conseguido levar adiante projetos devido ao ¿cobertor curto¿ do Orçamento. Para ele, a política do governo para o campo merece nota quatro. Em entrevista ao Jornal do Brasil, o ministro afirma que a atual crise do segmento não deve ser resolvida até o final do governo Lula. Rodrigues não vê saída para o endividamento do setor no curto prazo e diz que o canal de negociação com o Ministério da Fazenda está fechado.

O senhor já falou várias vezes que a crise do agronegócio é maior do que a crise política. Até o fim do governo Lula essa crise agrícola estará resolvida? ¿ A agricultura é uma atividade cíclica do ponto de vista econômico e ainda por cima sujeita a problemas climáticos. Este ano tivemos aumento dos custos de produção por causa dos preços do petróleo e do aço, da demanda crescendo no mundo inteiro e dos insumos, acompanhado de uma queda dos preços agrícolas, por causa de safras enormes no mundo inteiro. E como os anos favoráveis anteriores levaram os agricultores a investir muito, o endividamento cresceu bastante e ainda por cima tivemos uma queda de produção por causa da seca. São quatro fatores que nunca tinham acontecido juntos antes. A nossa conta é de que, este ano, teremos uma redução de faturamento bruto na agricultura em relação ao ano passado de R$ 17 bilhões. É astronômico.

Então não haveria como resolver a crise no curto prazo? ¿ Não há política agrícola que resolva essa crise. Com essas taxas de câmbio e de juros muitos produtos vão ficando inviabilizados do ponto de vista do mercado internacional. Acho que essa crise não se resolve até o final do governo Lula, porque o endividamento fica prorrogado, você vai ter acúmulo de problemas por alguns anos ainda pela frente.

No caso de haver um novo mandato do presidente Lula, o senhor fica por mais quatro anos ? ¿ Acho que eu já dei a minha contribuição.

O senhor se sente frustrado com essa crise política em que o governo se envolveu? ¿ Procuro me restringir aos meus problemas, que já são enormes. Me sinto muito mais frustrado por não resolver os problemas da crise agrícola. Numa situação dessa que estamos vivendo, não conseguimos alavancar mais recursos para o crédito de custeio a uma taxa de juros mais compatível com o setor produtivo, não conseguimos os recursos para ajudar na comercialização da safra e tirar esse problema do preço mínimo, que é uma vergonha. Isso sim me frustra profundamente: não conseguir implantar certas ações que eu desejava ardentemente, como o mecanismo de seguro rural. Não consegui fazer programas de defesa sanitária mais abrangentes, como modernizar e equipar laboratórios, porque faltam recursos. O cobertor é curto. E você tem demandas em outras áreas e este é um governo com clara visão da prioridade social.

O senhor se comprometeu a estimular uma maior produção para atender ao Programa Fome Zero. ¿ O programa Fome Zero indiscutivelmente avançou. Acho que, de fato, conseguimos construir uma coisa positiva. E observe que é uma contribuição relevante através da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). A Conab é que tem sido o braço operacional da aquisição dos produtos da agricultura familiar para o programa Fome Zero. Então, temos dado nossa contribuição.

Como empresário do campo, qual sua avaliação para o tratamento do governo Lula ao setor agropecuário? ¿ Eu daria nota quatro.

É uma avaliação baixa... ¿ É baixa. Talvez esteja sendo muito exigente com relação a isso. Esta nota não é para o governo Lula, é para mim, por não estar conseguindo realizar todos os projetos propostos e sonhos que eu trouxe na minha bagagem para o Ministério da Agricultura.

Isso é resultado só da falta de recursos? ¿ Em grande parte da falta de recursos. Mas também por não conseguir ter agilidade em decisões de importância para o setor como, por exemplo, a Lei de Biossegurança. Só agora está saindo a regulamentação da lei. O presidente da República, inclusive, quer, rapidamente sancionar, por decreto, essa regulamentação. Mas assim mesmo, demoramos dois anos e nove meses para fazer uma lei que é fundamental para o progresso tecnológico do Brasil. Isso é para dar um exemplo de como as coisas são lentas.

Neste ano, os recursos para o setor foram escassos, o que prejudicou uma série de projetos. O senhor acha que a Lei Orçamentária de 2006 enviada pelo governo vai ajudar a melhorar a situação no próximo ano? ¿ Se o Orçamento do ano que vem não for contingenciado, teremos realmente uma condição diferente de trabalho, como devíamos ter tido este ano. Este ano tínhamos um orçamento próximo de R$ 900 milhões. Acabamos ficando com um orçamento de R$ 691 milhões. Foi um corte dramático. O meu orçamento de trabalho no ministério foi contingenciado em praticamente 80% ¿ uma perda terrível.

Os produtores reclamam que as nações ricas não cumprem as decisões da Organização Mundial do Comércio (OMC). O senhor concorda com a posição do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, de buscar uma saída negociada, em vez de aplicar imediatamente as medidas de retaliação? ¿ A decisão da OMC está tomada e compete aos países filiados cumpri-la. Se o país não cumpre, ele está desobedecendo uma instituição e, nesse caso específico, desmoralizando a instituição. A posição do governo brasileiro, inclusive do Furlan, não é de negociar coisa nenhuma. É de insistir no cumprimento. Acontece que a OMC não tem instrumentos de obrigação. A retaliação é que a questão a ser negociada. E é nisso que o Furlan estava trabalhando.

Os produtores brasileiros de carne in natura contavam com um acordo para a abertura do mercado dos Estados Unidos. Qual é a expectativa do senhor quanto a esta negociação? ¿ Tenho discutido muito isso com as lideranças do governo americano. Estou com a expectativa de conseguirmos a abertura do mercado para o ano que vem.

Quanto às dívidas agrícolas, o presidente vetou um dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias que abriria espaço para uma futura renegociação. O canal de renegociação de dívidas está fechado? ¿ O Ministério da Fazenda tem uma posição fechada. Não aceita rediscutir essa flexibilização. E a minha posição não é fechada. A minha discussão junto ao presidente da República é que, pela mesma razão pela qual os produtores não podem pagar seus financiamentos de custeio este ano, também não podem pagar pela securitização.

Se a Fazenda fechou o caminho, há um outro mecanismo para negociar com os produtores? ¿ É o presidente da República retomar o tema. O problema é que agora começa a vencer. Então vai haver uma inadimplência no setor.

O senhor fez vários estudos na área de cooperativismo. O que já avançou desde que assumiu a pasta até agora? ¿ Avançou menos do que gostaria. Estive recentemente com o presidente tratando desse assunto para implementar mecanismos de capitalização de créditos de produtos agrícolas e dar uma outra condição para o sistema voltar a progredir, espero que até o final deste ano. Inclusive a legislação cooperativista que até hoje não conseguimos aprovar.

O senhor considera que essa legislação pode ser aprovada ainda neste mandato? ¿ É um projeto que foi entregue no Congresso em julho de 1989. A idéia do governo é que isso aconteça, de modo que estou trabalhando com essa tese. Como temos lá agora o deputado Aldo Rebelo (presidente da Câmara), que é um entusiasta do cooperativismo, quem sabe a gente consegue avançar nessa direção.