Título: Troca-troca com o dedo do Planalto
Autor: Renata Moura
Fonte: Jornal do Brasil, 01/10/2005, País, p. A3

De olho nas possibilidades de alianças para 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exerceu papel decisivo durante a movimentação partidária nos últimos dias. Com o prazo se esvaindo para os políticos que quiserem disputar a eleição do ano que vem trocarem de partido, alguns parlamentares sofreram fortes influências palacianas na hora de definir o melhor caminho a seguir no próximo ano. Lula conseguiu convencer o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a não se filiar a nenhum partido. Fez o vice-presidente, José Alencar, ingressar no PRM (partido da Igreja Universal do Reino de Deus) em vez do PSB, com o qual já negociava há quase um mês. E ainda conseguiu manter no PT, um dos grandes destaques que o partido revelou durante as investigações na CPI dos Correios: o senador Delcídio Amaral (MS).

Em todas as negociações, Lula corre para não ficar sem um ''fiel parceiro'' para a chapa de reeleição. Ele quer garantir alternativas caso não consiga manter o apoio do PMDB, que ficou ainda mais rachado depois do apoio declarado do presidente da legenda, deputado Michel Temer, ao candidato da oposição na reeleição do presidente da Câmara dos Deputados. As negociações do Planalto influenciaram no fortalecimento do PMDB governista. Ontem, os governadores Paulo Hartung, do Espírito Santo, e, Eduardo Braga, do Amazonas, foram para a legenda na tentativa de reforçar a bancada dos sete governadores do PMDB, até então dominada pelos oposicionistas.

Na negociação com Paulo Hartung, que se arrastava há meses, pesou a oferta de uma possível candidatura a vice-presidência na chapa de reeleição de Lula. Com a onda de filiações, o PMDB ultrapassou o PT em número de parlamentares na Câmara. Até então, o partido do presidente Lula possuía a maior bancada da Casa. Até a noite de ontem, o PMDB reunia 89 deputados contra 83 do PT. Mas como as filiações podem ser feitas até às 19h de hoje, em qualquer Tribunal Regional Eleitoral não dá pra prever se ocorreram novas filiações.

Os conselhos do Planalto em relação à filiação de Alencar ao PMR também contribuíram para que o recém-criado partido dos pastores da Igreja Universal começasse a mostrar que pode se fortalecer nos próximos anos. Com o vice afastado do PL - partido envolvido no escândalo do mensalão - e agora, parte de um partido onde a militância tem sua base em milhares de evangélicos, Lula tem mais um trunfo para construir sua campanha de reeleição. Se faltarem opções e Alencar concordar em deixar de lutar pelo governo de Minas Gerais, poderiam juntos tentar um novo mandato na eleição do ano que vem. Em uma semana, o PMR conseguiu formar uma bancada na Câmara com cinco deputados, e ainda filiou os senadores Marcelo Crivella (RJ) e Aelton Freitas (MG).

Apesar de evitar a saída do senador Delcídio Amaral (PT-MS), Lula não se empenhou muito em segurar os amigos de militância no partido que o elegeu. A bancada petista encolheu de 89 para 83 deputados. Perdeu o deputado Miro Teixeira (RJ), que deixou o partido para voltar ao PDT, e outros cinco parlamentares que preferiram seguir para o PSOL: Chico Alencar (RJ), Ivan Valente (SP), Orlando Fantazzini (SP), Maria José Maninha (DF) e João Alfredo (CE). A dissidência do PT mais radical acabou fortalecendo o PSOL, que passa a contar com uma bancada de sete deputados.