Título: CPI dos Bingos deixa Lula com os nervos à flor da pele
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 05/10/2005, País, p. A2

Embora, desde o surgimento das denúncias do mensalão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha se manifestado favorável à ampla e irrestrita apuração dos fatos investigados pelas CPIs no Congresso, bastou mais uma ameaça de a crise subir a rampa do Palácio do Planalto para que o discurso caísse por terra. No final da manhã de ontem, com o voto de minerva do senador Efraim Morais (PFL-PB), a CPI dos Bingos aprovou por oito votos a sete a realização de uma acareação entre Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente, e João Francisco e Bruno Daniel, irmãos do prefeito assassina de Santo André, Celso Daniel.

A data da acareação ainda não foi marcada e é provável que ocorra em sessão fechada. Mas o assunto mexeu com os nervos do presidente Lula e com ministros no Planalto.

- Estou esperando a CPI dos Bingos chamar um bingueiro - respondeu Lula indagado sobre a acareação e dizendo que a comissão está desviando o foco da investigação. Lula chegou a aconselhar repórteres a perguntarem a senadores e deputados sobre o assunto.

Lula já havia partido em defesa do chefe de gabinete anteontem, em reunião reservada com empresários, que o questionaram sobre o caso, segundo pessoas próximas a ele.

- É uma maldade o que estão fazendo com o Gilberto. Desafio qualquer pessoa a apresentar algo contra ele - teria dito o presidente.

A maior preocupação no governo é com relação ao estado de espírito de Gilberto Carvalho. Os irmãos de Celso Daniel, assassinado em 2002, acusam o chefe de gabinete de Lula de ter confidenciado a eles um esquema de cobrança de propina na prefeitura de Santo André.

Gilberto Carvalho nega e, a interlocutores, disse não temer ficar frente-a-frente com os irmãos do ex-prefeito. Mas não escondeu o abatimento com a convocação para a acareação no rastro da reportagem da revista Veja que lançou novas suspeitas sobre o seu nome. Gilberto acha que está sendo vítima de uma disputa política cujo alvo principal seria o presidente Lula. Em entrevista à Veja, o juiz João Carlos da Rocha Mattos disse ter em mãos escutas telefônicas realizadas nos meses seguintes ao crime que, segundo ele, comprometeriam o chefe de gabinete presidencial.

- O assunto mexe com ele. Ele fica contrariado quando abre os jornais e vê seu nome sob suspeição num caso que terminou com o assassinato de um amigo - disse um auxiliar do presidente.

No Planalto, há quem tema que o amigo pessoal de Lula não suporte a condição de pára-raios do presidente e resolva entregar o cargo de maneira irrevogável. Até ontem, além de acompanhar Lula em viagens e controlar a agenda presidencial, Gilberto também atuava como o principal interlocutor do governo junto ao bispo Luís Flávio Cappio, em greve de fome para protestar contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco.

De formação religiosa, o chefe de gabinete de Lula chegou a colocar o cargo à disposição tão logo surgiram as denúncias contra ele. Mas Lula não aceitou.

Com maioria oposicionista, a CPI dos Bingos tem sido o calcanhar de Aquiles do governo. Ontem, só não foi aprovada a convocação do ministro da Fazenda Antônio Palocci e seu irmão, Adhemar, porque a oposição concordou em adiar o pedido. Adhemar é suspeito de envolvimento com seguradora investigada por ganhar seguros bilionários de estatais do setor elétrico, após ter contribuído para as campanhas eleitorais de petistas em Goiás.

A CPI aprovou mais dois requerimentos: a convocação de Rocha Mattos e do ex-secretário-geral do PT, Silvinho Pereira, que acusou a direção petista de ter conhecimento do caixa 2 nas campanhas eleitorais.