Valor Econômico, v. 20, n. 4842 21/09/2019. Brasil, p. A8
 

Empresários debatem saídas econômicas para a Amazônia
 Daniela Chiaretti 

 

“Iniciar um processo de diálogo é motivo de enorme satisfação. As ruas, com as manifestações dos jovens, nos mostram que a crise climática é gravíssima e seu trato, inadiável. Não dá para postergarmos as nossas ações”, começou o empresário Guilherme Leal, copresidente do Conselho de Administração da Natura e fundador do Instituto Arapyaú. “Não vou falar nos dramas, mas nas oportunidades. O que nos traz aqui é a gravidade do presente.”

O empresário abriu assim o evento “Um Diálogo para a Amazônia Possível”, que reuniu cem convidados brasileiros e estrangeiros ontem, na sede das Nações Unidas, em Nova York. Na plateia estavam o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o governador do Amazonas Wilson Lima (PSC-AM), o ex-presidente do BNDES Joaquim Levy e Paul Polman, ex CEO da Unilever. 

“Temos que nos mobilizar pela Amazônia, valorizar o diálogo, a importância de ter todos os atores presentes. Os problemas são de dimensão planetária”, continuou Leal. “Nenhum de nós, isoladamente, pode construir soluções. ”

“A primeira coisa a fazer, quando temos um problema, é aceitar que ele existe”, seguiu Leal. “Há questões muito sérias que precisam ser enfrentadas no curto prazo.”

A Amazônia, disse, precisa de um plano que abrigue desenvolvimento e preservação e torne seus 20 milhões de habitantes “cúmplices de uma Amazônia produtiva”.

“Este evento, hoje, historicamente talvez marque uma mudança de curso”, disse o climatologista Carlos Nobre. “É agora que precisamos mudar. Não temos mais tempo a perder.”

“Nossas observações científicas na Amazônia, sobre a duração da estação seca, a perda de espécies, tudo isso nos diz que o suicídio está muito próximo”, continuou Nobre, lembrando que a floresta, com mais desmatamento, começa a perder a capacidade de retirar carbono da atmosfera.

Nobre repetiu o exemplo que havia dado no sábado, em evento também sobre a Amazônia no imponente Harvard Club. Em 2017, a economia de açaí, cacau e castanha em sistemas agroflorestais na Amazônia utilizou uma área de 4 mil km2 e obteve rendimento bruto de US$ 7 bilhões, citou. Em comparação, a pecuária e a soja produzidas em cinco Estados da região registraram ganhos de US$ 14 bilhões, mas ocuparam 240 mil km2.

Marcelo Britto, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), lembrou que o modelo do agronegócio do passado, em que “a maioria desmatou tudo o que podia”, foi de “perpetuação da pobreza e da miséria”.

Segundo ele, no Pará, existem 3,6 milhões de pessoas pobres e 1 milhão na linha da miséria. “É um caso crônico de política pública que não funcionou.” Lembrou que há 50 anos não se tinha o conhecimento e a tecnologia para aplicar em um modelo de desenvolvimento mais adequado, quadro que mudou hoje.

Um dos maiores entraves, disse Britto, é o caos fundiário. “A insegurança jurídica é péssima. Poucas empresas sérias e que não entram no jogo da corrupção conseguiram fincar suas raízes na região.” Segundo o executivo, “se não se agregar à mudança a eliminação da pobreza e das desigualdades sociais, não se atingirá o ponto que precisamos.”

“Estamos em mares turbulentos no mundo”, disse a islandesa Halla Tómasdóttir, CEO do The B Team, grupo que reúne 30 líderes empresariais globais. “Ninguém mais acredita na mídia, nos negócios, na sociedade, nos governos.”

“Logo ninguém mais irá tolerar esta maneira de fazer negócios que nos deixou com glaciares derretendo e o nível do mar subindo”, continuou. Para ela, soluções baseadas na natureza são a nova fronteira. “Não tem que ser uma escolha de ou se preserva ou se desenvolve. Tem que ser ambas.”

O cineasta Fernando Meirelles cobrou “compromissos concretos, além de palavras bonitas” na CoP-25, próxima rodada do clima, no Chile. “E espero que metade do PIB brasileiro assine estes compromissos.” Para ele, empresas deveriam começar a zerar emissões de carbono e reflorestar grandes áreas.

Salles foi convidado a falar depois dos palestrantes. Disse que havia tomado nota do que haviam dito. “São tantas as dificuldades que se têm no Brasil para se empreender fora da Amazônia, e talvez, ali elas sejam potencializadas”, registrou. Defendeu que as soluções sejam simples e que a desigualdade social não seja ignorada.

O evento começou a ser desenhado há um mês. Teve como apoiadores a Coalizão Clima Florestas e Agricultura, a Rede Brasil do Pacto Global e o Sistema B, além do Instituto Arapyaú.