Valor Econômico, v. 20, n. 4894 05/12/2019. Política, p. A15
“Seria impossível não apoiar a reeleição de Bolsonaro”
Isadora Peron
Fabio Murakawa
Murillo Camaratto
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, afirmou ontem que nunca passou pela sua cabeça disputar a Vice em uma chapa liderada pelo presidente Jair Bolsonaro em 2022. O ex-juiz da Lava-Jato também voltou a negar que tenha a pretensão de ser candidato à Presidência e disse que, para ele, seria “impossível” não apoiar uma eventual reeleição de Bolsonaro.
“O presidente já se posicionou que vai concorrer à reeleição. Sou ministro do governo, acho que seria impossível fazer algo diferente do que apoiar o presidente Jair Bolsonaro para a reeleição.”
Moro também negou que tenha planos de ser candidato a vice. “No que se refere a outras perspectivas eleitorais, como ser candidato a vice-presidente, isso, na verdade, não passa na minha cabeça. Primeiro porque 2022 está lá longe. Três anos é um período de tempo extremamente significativo. Segundo, eu tenho grande apreço e respeito pelo general Hamilton Mourão, virtual vice-presidente”, afirmou.
O ministro disse ainda que considera Mourão o nome mais indicado para o posto. “Eu acho que isso vai ser construído lá na frente pelo presidente Jair Bolsonaro e cabe a ele fazer essa a escolha. E a escolha melhor seria o próprio Hamilton Mourão.”
As declarações de Moro aconteceram durante o seminário “E agora, Brasil?”, organizado pelo Valor e o jornal O Globo, com o patrocínio da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Durante a sua fala, Moro fez uma defesa das iniciativas do governo e voltou a afirmar que decidiu largar a magistratura para avançar no combate à corrupção. O evento aconteceu no mesmo dia em que o ministro foi ao Congresso defender a aprovação de propostas para reestabelecer a prisão após condenação em segunda instância e do pacote anticrime.
O ministro, no entanto, reconheceu que dificilmente os parlamentares irão aprovar uma das propostas que é considerada prioritária para Bolsonaro, o chamado excludente de ilicitude para policiais.
Ao comentar o tema, Moro afirmou que casos como a morte da menina Ágatha, no Rio, e a morte de nove pessoas em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, não poderiam ser enquadrados como legítima defesa.
O ministro também classificou como um “erro operacional grave” da Polícia Militar de São Paulo o episódio de Paraisópolis. “Nesse caso em São Paulo, com todo respeito à Polícia Militar do Estado, realmente é uma corporação de qualidade, elogiada no país inteiro, aparentemente houve lá um excesso, um erro operacional grave, que resultou na morte de algumas pessoas”, afirmou.
Pela proposta do governo, policiais que matassem em serviço poderiam se livrar de punição caso o “ excesso” decorresse “de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Em outra frente, o ministro também voltou a defender a federalização das investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, mas disse que, se for para acusar o governo de obstruir o avanço da apuração, é melhor que o caso fique com a Justiça do Rio de Janeiro.
“A minha avaliação pessoal é que ficaria melhor a federalização. Mas se isso encontra oposição de familiares, tudo bem, que fique lá com a Justiça Estadual do Rio de Janeiro. Se for para alegar que nós queremos obstruir as investigações, então que fique lá com a Justiça Estadual, com Ministério Público Estadual, com Polícia Civil”, disse.
E continuou: “Mas aí que não se venha culpar o governo federal pela falta de apuração do crime como se faz em foros internacionais. Ou não se venha, ao Ministério da Justiça, pessoas reclamarem que o governo federal não está fazendo nada”.
Moro afirmou ainda que foi graças ao trabalho da Polícia Federal (PF) que se verificou que uma testemunha foi “plantada” para desviar as investigações, em uma referência ao caso envolvendo Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), acusado de ser o mandante do crime.
Ele também saiu em defesa do presidente no caso do porteiro que citou o nome de Bolsonaro em um depoimento. “Mais recentemente, surgiu esse episódio envolvendo, na minha opinião fraudulentamente, o nome do presidente”, disse.
Moro também minimizou as recentes declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, em relação à edição de um novo AI-5 caso o Brasil enfrente manifestações populares como as do Chile. “Eu acho que se exagerou na reação a uma fala dele (Guedes). Ele falava contra radicalismos, não a favor de medidas de exceção”, apontou.
Para Moro, “o que nós precisamos compreender é que nós vivemos numa democracia estável, com instituições fortes, então qualquer discussão a esse respeito eu acho que não faz sentido”. “Eu não vejo nenhum cenário de autoritarismo no horizonte próximo, ou distante, médio. Então eu acho que é uma discussão falsa”, afirmou.
Ele, porém, admitiu que o projeto enviado ao Congresso para aprovar o excludente de ilicitude durante missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) tem como objetivo dar garantia ao trabalho de integrantes das Forças Armadas em protestos violentos. “Eu não vejo no cenário brasileiro a ocorrência de episódios como nos outros países. Mas no Chile também não se via essa perspectiva e acabou ocorrendo.”