Título: Crônica de uma triste vitória palaciana
Autor: Márcio C. Coimbra
Fonte: Jornal do Brasil, 06/10/2005, Opiniao, p. D2
A história da eleição de Aldo Rebelo para a presidência da Câmara dos Deputados traz, em seus episódios, todos os aspectos daquilo de mais triste que existe na política brasileira. Neste palco foram encenadas traições, manipulações, fisiologismo, ameaças, pressões e promessas. Antigas práticas da política brasileira tradicional que somente trazem desgosto e desesperança. A tropa de choque do presidente Lula parece ter aprendido em pouco tempo todos os truques e armações sórdidas de cooptação parlamentar. A vitória de Aldo era necessária a qualquer custo. Assim, começou a farra. Pelos corredores do Congresso Nacional, além da circulação de Ministros de Estado, ouvia-se a seguinte frase: ''O governo tá vendendo a mãe para que ele ganhe''. Ganhou. A desilusão entre alguns parlamentares era enorme. O deputado Paulo Delgado, mesmo sendo petista, declarou: ''Se o governo ganhar, perdeu''. Ganhou. E como está claro, perdeu. Tudo começou com uma história de traição dentro do PMDB, quando Renan Calheiros e José Sarney, depois de incentivarem o lançamento do nome de Michel Temer, costuraram por fora com o Planalto a candidatura de Aldo Rebelo. Já a construção da maioria em torno de Aldo começou pelos aliados habituais do governo Lula. José Janene, do PP, antes da votação, dizia que seu partido iria garantir a vitória do governo. No plenário, Eduardo Campos (PSB), ex-ministro de Lula, e Renildo Calheiros (PC do B e irmão do presidente do Senado, Renan Calheiros) cumprimentavam efusivamente o líder pepista, dizendo: ''Você foi um gigante, Janene. Um gigante'', ''Se não fosse você, não sei, não...''. Nas hostes do PL, Sandro Mabel comandava a tropa em favor de Aldo. Tanto Janene, quanto Mabel, enfrentam processos no Conselho de Ética da Casa acusados pela CPI de se beneficiar do esquema de corrupção intitulado ''mensalão'', oriundo das contas de Marcos Valério. Depois do esforço daqueles que estavam prestes a ser cassados por corrupção, tudo indica que agora, sob a batuta de Aldo, poderão ser salvos. Não há dúvida de que este será o preço cobrado.
Enquanto isso, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que renunciou ao cargo parlamentar para evitar sua cassação por corrupção, negociava um novo ministério para seu partido enquanto comemorava um polpudo aumento de verbas para a pasta dos Transportes, comandada por seu partido. No PTB, o ministro Walfrido dos Mares Guia estava quase chorando, enquanto implorava para que os deputados do partido votassem em Aldo. Ainda circulou pelo Congresso Nacional o boato de que o Planalto havia oferecido o Ministério da Educação para o deputado Ciro Nogueira (PP-PI), discípulo de Severino, em troca de apoio. Entretanto, tudo indica que um acordo, previamente acertado por Lula, beneficiou o próprio Severino Cavalcanti.
Aldo Rebelo, um parlamentar respeitado, sempre com muito trânsito entre vários grupos no Congresso Nacional, mostrou a disciplina daqueles que militam e defendem as idéias comunistas e que são designados para uma tarefa, como um soldado que não questiona ordens. Foi líder e depois coordenador político do governo, quando este supostamente pagava ''mensalão'' aos parlamentares. Depois de ser humilhado, fritado e desprezado pelo governo e seus principais cardeais, entre eles o antigo chefe da Casa Civil José Dirceu, assumiu a responsabilidade de ser o candidato do presidente Lula, visto que o PT não angariava as mínimas condições de lançar um nome. Entrou na briga e venceu. Entretanto, pode ter sujado sua biografia, pois sua eleição foi claramente construída dentro das mais odiosas práticas fisiológicas da política brasileira.
Passada a eleição, analistas virão aos meios de comunicação dizendo que a eleição para presidente da Câmara passou, que o governo precisa recompor sua base, que a Câmara deve imprimir uma agenda positiva para o Brasil, que o governo Lula tomou fôlego novo. Contudo, entre nós, caro leitor, devemos pensar. Não há o que comemorar. Obter a presidência do Parlamento para abafar corrupção é vitória? Ganharam aqueles que usaram dinheiro público, mediante liberação de emendas, para manipular votos dos parlamentares, o que foi chamado até de ''mensalão legal'' ou ''mensalão oficial''. Os acusados de corrupção terão seus processos postergados, sendo alguns até inocentados. A pizza suprema foi colocada no forno. Entretanto, apesar de sabermos quem ganhou, é mais importante para o povo saber quem perdeu. Perdeu a política brasileira. Perdeu a ética. Perdeu o bom senso. Perdeu o povo. Perdeu a parte boa do Parlamento. Perdeu a boa governança. Perdeu a esperança. Mas esta, bem, esta já foi roubada pelo inquilino do Planalto desde a sua posse, quando o maior esquema de corrupção da República foi instaurado no Brasil. 2006 está chegando, pense bem que tipo de País estamos construindo.