Título: Novo regime retarda a linha-dura
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Fonte: Jornal do Brasil, 04/10/2005, Internacional, p. A8

Quando o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad foi eleito presidente do Irã, em junho, uma banda de rock recebeu um telefonema. Do outro lado da linha, um funcionário do Ministério do Interior avisava que os roqueiros teriam de cancelar um show porque o governo não ''garantia segurança''. Os músicos pressentiram ser o início de um longo período de restrições sociais, abrandadas na era do presidente Mohammad Khatami. Mas o que parecia assustar mostrou-se um falso alarme. Em várias questões nas quais se julgava inevitável um retrocesso, não houve alteração no regime.

- Pouco mudou. Estávamos esperando, mas não aconteceu. Ainda - afirma, desconfiado, o guitarrista Amir Tehrani.

De fato, três meses depois da vitória de Ahmadinejad, os iranianos viram poucos sinais de mudança. Pelo contrário, há situações que indicam o oposto, como a festa do Dia Internacional da Música - celebrado sábado. Ou a autorização para o primeiro torneio de pólo feminino em 100 anos. Chamado de ''o esporte dos príncipes'', o jogo é associado a uma tradição dos palácios ''que data de 2.500 anos''.

- O que tocamos é um teste para descobrir como o governo vai reagir, o que pensa - desafia Kambiz Roshanraven, diretor da Casa de Música de Teerã.

A incerteza tomou conta da cena cultural iraniana na Revolução Islâmica de 1979, que forçou músicos, por exemplo, a esconderem seus instrumentos. Até poucos anos, só shows de músicas típicas eram permitidos. Mas mulheres não podem ser cantoras. A tevê era proibida de mostrar instrumentos, que, em 1996, só podiam ser transportados com permissão oficial. No sábado, o compositor Alireza Mashayekhi, mestre de cerimônias do Dia Internacional da Música, pediu uma tomada de posição do governo:

Segundo uma organização que representa 7 mil músicos no Irã e tem uma lista de espera de mais 400, há 600 escolas de música só na capital - antes da revolução eram 12 - e mil fabricantes de instrumentos.

Ainda assim, são poucos os que acreditam numa abertura efetiva do presidente linha-dura.

- Falta apoio do governo. Estamos sempre com medo - avalia Mehdi Siadat, do grupo Javan. - O presidente promete muita coisa. Estou otimista, mas...

A desconfiança tem sua razão de ser. Aparentemente, segundo analistas internacionais, o presidente está totalmente empenhado na disputa com os Estados Unidos em torno das usinas nucleares iranianas e não quer ampliar os pontos de atrito. Ontem, em mais um lance da disputa, a Casa Branca exortou a Rússia - principal parceira de Teerã na questão - a congelar as conversações com o regime xiita.

Porém, para Kenneth Pollack, diretor de pesquisas do Instituto Brookings, de Washington, a questão pode ser outra. Ahmadinejad tem um poder apenas virtual. Quem manda realmente é o supremo aiatolá Ali Khamenei.

- O discurso do presidente na ONU foi considerado em casa como beligerante demais. Khamenei não é amigo dos EUA, mas é mais pragmático que Ahmadinejad - afirmou Pollack em uma reunião com o comitê de Defesa do Congresso americano. Por essa ótica, o ex-prefeito de Teerã estaria sob uma tutela mais forte que a sofrida por seu antecessor.