Título: Credibilidade em risco
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 04/10/2005, Opinião, p. A10
No vasto campo dos escândalos mal explicados, espera-se da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) o cumprimento de uma obrigação fundamental: responder de maneira rápida, eficaz e definitiva às gravíssimas interrogações sobre o escândalo do apito que tem manchado a reputação do Campeonato Brasileiro deste ano. A revelação de envolvimento de um árbitro de elite (o juiz Edílson Pereira de Carvalho) com apostadores profissionais para favorecer, mediante pagamento, resultados de partidas pôs sob suspeita não apenas os jogos para os quais ele fora escalado. Tornou-se também uma inquietante ameaça à credibilidade da Comissão de Arbitragem da CBF e, em conseqüência, do Campeonato Brasileiro. Convém destacar, no entanto, a decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) de anular os 11 jogos apitados por Edílson - exigindo a realização de novas partidas. Era uma medida necessária, uma vez que não se poderia ter certeza, pelas imagens arquivadas e pelas informações dos falsários, se o árbitro teve influência ou não nos resultados de tais jogos. Um juiz de futebol, insista-se, tem poderes suficientes para interferir nos rumos de uma partida. Pênaltis forjados, expulsões injustas, gols irregulares validados, gols legítimos anulados, entre outras práticas, podem oferecer novos contornos a qualquer disputa. Somados a sucessivos equívocos em campo, juízes tornaram-se alvo fácil de suspeitas de má conduta - incluindo-se aí a desconfiança em torno de cartolas, razão pela qual uma CPI no Congresso já desvendou segredos dos bastidores do amadorismo do esporte.
Sem juízes inteiramente livres das suspeitas de participarem de tramas destinadas a encher os bolsos de um grupo de apostadores em troca de vantagem pessoal, o futebol brasileiro corre o risco de afundar-se em desastres. Com a credibilidade abalada, perderá transparência. Sem transparência, verá destruído o profissionalismo que, aos poucos, vem conquistando por meio de ações pontuais. Sem profissionalismo, será conduzido a derrotas no jogo dos investimentos internacionais. Embora a preocupação de todos com este escândalo não deva transformar-se em paranóia coletiva, é pouco crível a premissa de que as tramóias montadas com o objetivo de manipular resultados resumam-se aos nomes até agora citados no escândalo.
Somados, os episódios transformam-se num deboche que contrasta com os avanços verificados no futebol brasileiro. Escancarar as práticas irregulares dentro de campo significará mais um passo do principal esporte do país rumo ao salto de qualidade desejado. Houve monumentais progressos nos últimos anos. São exemplos a redação do Estatuto do Torcedor (que, é verdade, ainda não pegou como deveria) e a Lei da Moralização (que também precisa ser aplicada com muito mais rigor), além da disputa do Brasileirão em pontos corridos. É inadmissível que, imerso num ambiente global no qual a competitividade de um esporte é sublinhada pelas divisas que geram ao país, nosso futebol conviva com quadrilhas agindo em campo.
Só uma ação rápida e incisiva da CBF - em acréscimo às investigações do Ministério Público e da Polícia Federal - poderá livrar o futebol brasileiro do fantasma da desconfiança coletiva.