Título: Uma solução para os hemofílicos
Autor: Lorenna Rodrigues
Fonte: Jornal do Brasil, 10/10/2005, Brasília, p. D6

Correr para o hospital depois de um corte ou de um pequeno acidente. Tomar medicação três, quatro vezes por semana - e sempre que houver risco de se contaminar. Receber sucessivas transfusões de sangue. A rotina de um hemofílico não é fácil. Portadores da hemofilia - transmitida geneticamente ou causada por má formação do feto durante a gravidez - não produzem o Fator VIII, IX ou PTA, responsáveis pela produção de uma enzima que leva à coagulação do sangue. Assim, quando se cortam ou, após um choque, apresentam hematoma, os hemofílicos têm velocidade de coagulação muito mais lenta do que de uma pessoa que não tem a doença, o que eleva o risco de hemorragias. Essa situação pode mudar - e a partir de Brasília. Uma melhoria no caminho dos hemofílicos está sendo pesquisada nos laboratórios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em Brasília. Com tecnologia 100% brasileira e, digamos, 75% candanga - já que a pesquisa é fruto de parceria entre a Embrapa, Universidade de Brasília, Hospital de Apoio e Universidade Federal de São Paulo - os pesquisadores tentam produzir o Fator IX recombinado, não derivado do plasma humano.

- Atualmente, todo o tratamento de hemofílicos no Brasil é feito com remédio derivados do plasma humano. O remédio é feito a partir do sangue humano e, quando se partiu para seu preparo, na década de 80, houve um surto de contaminação de Aids e Hepatite C entre os hemofílicos. Hoje, os remédios são muito seguros contra doenças conhecidas, mas ficou o trauma daquela época. Além disso, a medicação não está livre de carregar novos vírus. O ideal é o fator recombinante, que não é produzido a partir do plasma humano - explica a médica Jussara Almeida, coordenadora do Centro de Tratamento de Coagulopatia do Hospital de Apoio.

A pesquisa da Embrapa envolve noções complexas como modificação genética e clonagem.

- O que nós fazemos é expressar proteínas de interesse médico, como o Fator IX, e produzi-las no leite bovino - explica um dos responsáveis pela pesquisa, o agrônomo Francisco Aragão.

Os pesquisadores começam agora a fazer testes com células bovinas. Desde que começou a pesquisa, há dois anos, os experimentos eram feitos em camundongos. Depois de retirar o gene responsável pela produção do Fator IX de um DNA humano (ver quadro), os cientistas o colocam em uma célula bovina, anexada a uma cadeia de caseína, a proteína responsável pela produção de leite.

Na etapa seguinte, o núcleo de um óvulo bovino já fecundado é retirado, e a célula modificada com o gene do Fator IX implantada em seu lugar. A vaca gerada a partir de tal óvulo é um clone da primeira, com o adicional de produzir o Fator IX. Quando a vaca estiver adulta, produzirá, junto da caseína, o Fator IX, que é então separado do leite.

Além de ser totalmente livre de contaminação, a produção do Fator IX através do leite tem outra vantagem : a redução significativa dos preços.

- A vantagem principal da pesquisa é a possibilidade de produzir o produto em larga escala. Uma só vaca produz em média 10 litros de leite diariamente, o que nos dá matéria prima à vontade - aponta o pesquisador.

Segundo a médica Jussara, ainda não há previsão do tamanho da economia aos cofres públicos. Segundo ela, todo o fator que é comprado no Brasil é importado. Um frasco do remédio custa cerca de US$ 100 mas cada paciente chega a usar 20 frascos por semana.

- Já existe o fator recombinante no mercado internacional, mas cada frasco custa até três vezes mais do que o derivado do plasma e não é comprado pelo Ministério da Saúde por causa do alto preço. Tenho certeza de que conseguiremos produzir o fator recombinante a preço menor do que o derivado de plasma importado - explica.

A médica conta que fez testes com a proteína produzida ainda no leite de camundonga em laboratório.

- Os resultados foram impressionantes, deu tudo certo, pelo menos em laboratório. Espero que o fator seja produzido em larga escala rapidamente, porque isso vai melhorar a qualidade de vida de nossos pacientes e nos dar capacidade de atender a cada vez mais pessoas - acredita.