Título: Um partido para mudar a economia
Autor: J. Carlos de Assis
Fonte: Jornal do Brasil, 12/10/2005, Outras Opiniões, p. A11
Acaba de nascer em Belo Horizonte o Partido Republicano, cuja personalidade de maior destaque é o vice presidente José Alencar, que assinou sua ficha de filiação numa solenidade realizada no Hotel Ouro Minas há duas semanas. Alencar tinha várias opções partidárias. Escolheu, porém, um partido novo, um partido a ser construído. Há muito que ele estava informado do projeto de organização do PR, tendo sido um dos seus principais estimuladores. Tão logo o partido recebeu registro definitivo, o que veio a coincidir com a retirada de Alencar do PL, a decisão ocorreu naturalmente. E o que é o PR, a que vem, qual o significado de sua qualificação de republicano? O partido foi organizado com o nome provisório de Partido Municipalista Renovador, com um programa também provisório. O título definitivo de Partido Republicano deve ser aprovado em seu primeiro congresso, a realizar-se brevemente. Os evangélicos tiveram participação decisiva em sua organização, mas ficou muito claro, desde o início, que não seria um partido religioso. É um partido de fé, sim, mas de fé no Brasil, e na sua capacidade de levantar-se, pela ação política, da profunda crise social e moral em que está prostrado.
O senador Marcelo Crivella, a alma animadora do novo partido, recorre a uma metáfora para justificar a opção pela luta política de alguns evangélicos de vanguarda, cuja simples existência espanta muita gente, em razão do preconceito e dos estereótipos. O pastor, diz Crivella, liberta o escravo. Mas é a política que acaba com a escravidão. É com esse espírito que nasce o PR. É o partido que vai libertar o Brasil da escravidão das mais altas taxas de juros no mundo, expressão de uma política fiscal-monetária que se tornou a mais iníqua máquina de transferência de renda de pobres para ricos em todo o planeta.
A mensagem recorrente de Alencar tem sido a mudança da política econômica, em especial da política monetária. Leal amigo de Lula e seu companheiro de projeto político, o vice presidente se sente frustrado com o desfiguramento deste projeto, e com os rumos da política econômica em curso. Sua experiência de homem de negócios muito bem sucedido, com uma profunda preocupação social, o legitima como defensor de uma opção política que restaure o desenvolvimento econômico e social brasileiro. Assim com o PR, que nasce com sua cara, o vice José Alencar é um desenvolvimentista apaixonado!
Aqueles, como eu, que se inscreveram no novo PR, inclusive com a responsabilidade de participar da elaboração de uma proposta de programa definitivo, sabem que não será tarefa fácil. O que pretendemos não é pouco. É mudar o eixo da acumulação capitalista no Brasil do sistema financeiro especulativo para o sistema produtivo. Em uma palavra, entendemos que a renda justa é a que deriva direta e indiretamente do trabalho humano, e não a renda da extrema especulação, quando o governo, para garantir moeda financeira, toma dinheiro emprestado para simplesmente o destruir na fogueira do over.
Nossa opção pela marca republicana decorre do nível de nossas ambições. De fato, não queremos prometer ao povo brasileiro a lua e as estrelas. Queremos nos comprometer a lutar arduamente para a conquista de direitos republicanos originais, do direito ao trabalho remunerado ao direito à saúde e educação, os quais são garantidos há mais de 200 anos aos povos que souberam construir a democracia social a partir da democracia política. Naturalmente, para que possamos investir o necessário em políticas públicas, temos que mudar a economia, o que implica um projeto de poder só acessível a partidos políticos.
Procuraremos alianças partidárias em torno do projeto de estado do bem estar social com pleno emprego. Esta será a marca de nossa participação das eleições do próximo ano. Outras personalidades importantes, além de Alencar e Crivella, estão filiados ou estarão conosco. Vou citar dois, cujo espírito público e devoção às causas republicanas são conhecidos de todo o Brasil: Raphael de Almeida Magalhães, o ex-governador e ex-ministro, e Mangabeira Unger, o brilhante professor brasileiro de Harvard, antigo conselheiro de Leonel Brizola. O que temos em comum? A fé no Brasil e o compromisso com a construção de uma verdadeira democracia social em nosso país.