Título: No rastro da internacionalização
Autor: Bruno Rosa
Fonte: Jornal do Brasil, 15/10/2005, Economia & Negócios, p. A17
Empresas brasileiras ganham o mundo e elevam demanda por trabalhadores do país lá fora
Depois de penar com o confisco da poupança da mãe pelo governo Collor, Paco, um jovem sem muita noção sobre o que fazer do futuro, embarca para Portugal pronto para começar vida nova no exterior. A crise econômica retratada no filme Terra Estrangeira, de Walter Salles, ficou para trás, ainda mais depois do crescimento de 4,9% verificado no ano passado. Mas o fluxo de saída de brasileiros está longe do fim. Estima-se que 1% da população brasileira, ou 1,8 milhão de pessoas, esteja hoje expatriadas. O movimento, ao contrário do que se poderia supor, cresce com o ganho de renda e o fortalecimento do real. Seja para trabalhar ou estudar, o fato é que mais brasileiros vêm ganhando o mundo em busca de melhores oportunidades ou uma vivência, mesmo que curta, no exterior. Que o diga o empresário Márcio Ferreira, que coordena o WorkUSA há cinco anos no Brasil.
¿ Com o dólar em baixa, o preço dos pacotes está mais baixo e mais pessoas estão dispostas a ter uma experiência lá fora ¿ atesta.
Segundo ele, a procura cresceu 30% nos últimos seis meses, o que deve se fortalecer agora, com o início da temporada escolar nos Estados Unidos.
¿ O recrutamento para o pacote work & travel começou em 1º de outubro e segue até maio.
A procura se concentra em jovens, entre 20 e 30 anos, em busca de trabalho temporário legal.
¿ Não é preciso pular a cerca para entrar nos EUA. Hoje, há opções para o trabalho legal.
Ele cita exemplos, como o visto H2B, que permite a estadia de até 24 meses para jovens que vão trabalhar nos EUA. Mas não é só a América que conquista os brasileiros. Outros países, segundo Ferreira, vêm ganhando destaque, como a Austrália.
¿ Desde o ano passado, a Austrália vem divulgando o interesse por jovens da América Latina. Até então, eles recrutavam profissionais de perto, da Ásia, mas o sul-americano está sendo mais requisitado, porque tem mais facilidade de relacionamento e de adequação à realidade local ¿ avalia, citando exemplos de profissionais procurados: arquitetos, enfermeiros e mecânicos.
Acostumado a sanar as dúvidas de empresas emissoras e empregados que partem rumo ao exterior, o gerente-sênior de consultoria tributária da Deloitte Touche Tohmatsu, Mário Nascimento, atribui à crescente internacionalização das empresas brasileiras a saída, mesmo em tempos de bonança interna, de mão-de-obra verde-e-amarela.
¿ CST, Companhia Vale do Rio Doce, Petrobras são grandes empresas que estão fortalecendo sua atuação lá fora, o que aumenta a demanda por profissionais brasileiros no exterior ¿ avalia. Segundo ele, esses profissionais tomaram o lugar dos desesperançados dos anos 80, que saíram do país devido à crise econômica e à alta inflação.
¿ Mas a legislação não acompanhou este movimento. Até hoje, só existem regras de expatriação para engenheiros, devido à demanda observada nos anos 70. Uma norma geral, que pudesse ser usada por profissionais de outras áreas, já ajudaria ¿ diz Nascimento.
É o caso do economista Breno Galvão, 29 anos, que, contratado por uma grande consultoria, vai trocar o Rio por Nova York no fim do mês.
¿ Tenho uma meta a cumprir. Quero ganhar experiência, fazer networking e voltar como expatriado. O mercado de trabalho enxerga com bons olhos profissionais com essa vivência ¿ diz. ¿ Mas não é isso que me motiva, vou também pela experiência de vida. O jovem economista ensaia ainda uma explicação para o novo movimento de emigração de brasileiros:
¿ Muitas pessoas querem sair do país em busca de uma melhor perspectiva salarial, política e, mais recentemente, social. Atrás de qualidade de vida.