Título: Mistério na morte do legista
Autor: Juliana Rocha
Fonte: Jornal do Brasil, 14/10/2005, País, p. A3

O promotor do 1º Tribunal do Juri de São Paulo, Marcelo Milani, descartou ontem a morte natural do legista Carlos Delmonte Printes, na tarde de quarta-feira. Levantou a hipótese de homicídio ou suicídio, provavelmente por envenenamento. Printes atuou nas investigações do assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, em 2002, e sustentava a tese de que o político não foi vítima de um crime comum. ¿ Os legistas que examinaram o corpo não viram sinais de infarto ou de problema bronco-pulmonar. Obviamente está descartada a morte por causas naturais e existe a possibilidade de envenenamento ¿ enumerou Milani, indicado pelo Ministério Público de São Paulo para acompanhar o caso.

O corpo de Printes passou pela perícia durante a madrugada e não foram encontradas marcas de tortura, enforcamento ou injeções. Os legistas recolheram material de tecidos e órgãos para verificar o envenenamento. O laudo deve ficar pronto entre 10 e 20 dias.

O IML liberou às 5h50 o cadáver do legista, que seguiu para o crematório Jayme Augusto Lopes, em São Paulo. Por decisão judicial, a cremação, no entanto, foi suspensa, já que a causa da morte ainda não foi identificada. O corpo será enterrado hoje.

O promotor afirmou ao JB que pretende esperar pelo laudo do IML para começar os interrogatórios. Ele disse não ter um palpite sobre o caso.

¿ Pode ter sido homicídio ou suicídio. Neste caso, existem mais perguntas que respostas, mas vamos investigar a fundo ¿ afirmou o promotor.

Ele lembrou que Printes deixou para os filhos uma longa carta de despedida, na segunda-feira, na qual ele manifestava o desejo de ser cremado e passava dados bancários e dos cartões de crédito. Para o promotor, não é possível identificar se foi uma mensagem de despedida suicida ou de quem estaria sendo ameaçado de morte.

Guilherme, filho do legista, disse na noite de quarta-feira, que o pai não sofria ameaças e disse acreditar que ele teria sido vítima de enfarte porque reclamava de dores no peito e da gripe. Ontem, Guilherme não foi encontrado para comentar a conclusão dos legistas.

Em sua última entrevista, ao Programa do Jô, há 24 dias, Printes citou que estava gripado. Ele chegou a desculpar-se por seu estado de saúde.

Na quarta-feira, o diretor do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, delegado Domingos Paulo Neto, apressou-se em dizer que o mais provável era morte por causas naturais. O delegado sustentava sua tese na informação da família de que Printes estaria reclamando de uma forte gripe há cerca de dois meses.

Procurado ontem, o delegado não se pronunciou. A Secretaria de Segurança de São Paulo enviou à imprensa apenas uma nota do IML dizendo que o corpo passou pelo exame necroscópico.

Em Portugal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou irritado ao ser perguntado sobre a morte de Printes. Ele disse que não iria se pronunciar sobre o caso e que precisaria primeiro obter informações antes de falar sobre um assunto "dessa seriedade".

Até hoje, integrantes do PT defendem a tese de que Celso Daniel foi vítima de um crime comum.

A idéia era combatida por Printes, que dizia ter sido ¿censurado¿ durante três anos, para não dizer que considerava inverossímil a tese de crime comum. Em entrevista recente, Printes disse que o responsável pelo voto de silêncio foi o diretor do IML de São Paulo e que o Ministério Público explicou que seria uma medida para preservar sua segurança

O perito foi o sétimo envolvido no caso prefeito petista Celso Daniel que aparece morto. Ele constatou, na época, que o político havia sido brutalmente torturado, o que configurava que o crime não foi um homicídio comum. Há suspeitas de que o assassinato do ex-prefeito de Santo André esteja ligado a um suposto esquema de corrupção montado no município. A família do ex-prefeito de Santo André nunca deixou de defender a tese de crime político.

O corpo de Printes foi encontrado às 13h desta quarta-feira em seu escritório na zona sul de São Paulo, pelo filho Guilherme. Ele estava de cuecas e o corpo não tinha marcas de bala ou sinais aparentes de violência. A porta do escritório também não tinha sinais de arrombamento.