Título: Em nome da Virgem de Nazaré
Autor: Cleusa Maria
Fonte: Jornal do Brasil, 15/10/2005, Caderno B, p. B1

Enquanto isso, às seis da tarde de sábado, uma das réplicas da Virgem começa nova procissão pela Cidade Velha. Este ano, foi acompanhada - segundo Kleber Vieira, diretor de Procissões do Círio 2005 - por uma multidão de 1,2 milhão a 1,5 milhão de pessoas. É a chamada trasladação, na qual a imagem faz o trajeto inverso ao da procissão de domingo, numa espécie de ensaio geral para o grande dia.

Respeitando naturezas e diferenças, a festa da padroeira do Estado do Pará (tema de exposição em cartaz no Museu do Folclore, no Catete) está para os devotos de Naza, assim como o carnaval carioca para os foliões. O grito das festividades, há 12 anos, se dá na noite de sexta-feira durante o Auto do Círio de Nazaré, apresentado pela Universidade Federal do Pará e Companhia Vale do Rio Doce - uma das patrocinadoras da festa. A multidão se concentrou em frente ao Largo do Carmo para acompanhar a representação inspirada no teatro medieval. Seguiu em desfile, com paradas em quatro palcos do centro histórico. O Auto teve a participação de 150 atores e 70 ritmistas.

E lá se foi a santa na berlinda, outra vez, ao som do samba-enredo puxado pela paraense Creusa Gomes. Levou em seu rastro gente como a devota Cleonice Gigone, belenense, 57 anos, de vela na mão, samba na ponta da língua e muito apetite por açaí ''com bastante farinha''. Entre alegorias, santas, baianas, anjos, centuriões, destaques, mulatas, porta-bandeira e mestre-sala, seguiu rezando, sambando e cantando pelas estreitas ruas, de esgotos nas canaletas abertas, buracos e muito lixo no chão. O cortejo é um misto de procissão e bloco carnavalesco.

- Esta é uma cidade atípica por sua grande mistura cultural - explica a cantora paraense Fafá de Belém, horas antes de subir ao palco da Cadetral da Sé, de esplendor na cabeça e manto de renda, para cantar, entre outras, a música Nossa Senhora, de Roberto Carlos. - O Círio é o grande espetáculo da fé. O romeiro está louvando em festa e alegria. Não em purgação para chegar ao céu. O céu é aqui.

Era a estréia da artista no Auto do Círio, contratada pela Vale do Rio Doce para cantar também no camarote da empresa, no domingo, em um dos pontos privilegiados do trajeto - na Avenida Nazaré com Travessa Benjamin. Ali os 500 convidados da companhia tinham direito a arquibancada coberta e decorada, credenciais disputadas pelo público, camisetas customizadas e regalias. A maior delas era ver de perto o mar de gente, massa compacta que escorreu aos pés da arquibancada durante as cinco horas de procissão (a mais rápida dos últimos 12 anos). Fafá, que sempre cantou de graça da janela de seu casarão para os romeiros de Belém, foi uma das estrelas da festa. Incentivou promesseiros, sensibilizou almas devotas, animou corações incrédulos e fez lágrimas rolarem.

O sambista carioca Dominguinhos do Estácio, há dez anos na Escola Viradouro, foi o encarregado de fechar o Auto do Círio na noite de sexta-feira. Puxou o samba-enredo (como fez na Avenida, em 1975), na Apoteose localizada na Alameda dos Palácios, onde tudo terminou em carnaval. Mas na manhã de domingo, no ''camarote'', ele não conseguiu cantar. Engasgado, chorou durante toda a procissão, que acompanha há 18 anos consecutivos. Dominguinhos esteve em Belém pela primeira vez, em 1974, para pesquisar o enredo da Unidos de São Carlos. Hoje, aos 62 anos, cicatriz de uma cirurgia cardiológica riscando o peito de alto a baixo, ele abre a camisa e exibe a medalha de ouro do tamanho de uma moeda de R$ 1 pendurada no grosso cordão.

- Devo tudo a Nossa Senhora de Nazaré. Sofri um enfarte em 1998, quando estava dormindo. No leito do hospital conversei com ela e disse para a minha mulher que eu não ia morrer - repetia o sambista, que deu o nome da santa a sua filha.

O grande dia do Círio de Nazaré 2005 começou de madrugada. Às cinco horas da manhã, as ruas fervilhavam de romeiros, promesseiros, devotos e visitantes, muitos vindos das calçadas onde haviam pernoitado. Sob o céu azul leitoso do amanhecer, às 5h30, o arcebispo de Belém, Dom Oranim João deu início à missa cantada, nas presenças do núncio apostólico no Brasil Dom Lourenzo Baldisseri, de bispos, diáconos, padres de toda a região Norte, solenes em seus paramentos.

Tresnoitado, Flávio Américo, estreando como coordenador do Círio, observava satisfeito o resultado de 11 meses de trabalho na organização da festa. Este ano, teve o orçamento ímpar de R$ 1,204 milhão; 60% vindos do poder público e o restante, de empresas patrocinadoras e doadores particulares.

- Esta é a maior manifestação cultural do Ocidente - constatou Flávio Américo.

Em frente à Catedral Metropolitana (atualmente em reforma), o mar de gente ia se avolumando. O esquema de segurança envolveu 2 mil homens, entre Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Municipal e Forças Armadas. O mestre-de-obras amazonense Alfredo Francisco dos Santos, 63 anos, há 30 fazendo a guarda da Nossa Senhora de Nazaré, estava de novo em seu posto, mesmo sem dormir na noite anterior:

- Faço qualquer sacrifício e venço com luta para estar aqui. Ela (a santa) representa tudo para mim: é a minha fé.

Durante cinco horas, um oceano de cabeças molhadas por garrafinhas de água, camisetas e dorsos suados e pés no asfalto ondulou pelas ruas da cidade, entremeado pelos carros dos Milagres, dos Anjos e das Promessas. Entre os devotos, estavam militantes do Fórum Grito dos Excluídos, lembrando o assassinato da Irmã Doroty, ocorrido em fevereiro passado, no Pará.

Nas arquibancadas da Avenida Nazaré, ao se aproximar a corda (leia texto na página 1), que puxa a berlinda da santa e dá o ritmo à procissão, Fafá de Belém injetou alegria e contagiou promesseiros. Cantou Ave-Maria, Vós sois o lírio mimoso e até o refrão do samba-enredo Festa do Círio de Nazaré. Dominguinhos do Estácio continuou engasgado e foi assim que falou de como são diferentes as emoções no desfile da Viradouro e na procissão da madona de Nazaré:

- Como se diz, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. No Sambódromo, sou líder da minha escola e consigo manter o equilíbrio. No Círio, penso em tudo o que esta santa fez por mim e sou totalmente dominado pelas emoções.

Ele, assim como os 2 milhões de romeiros que entoavam com Fafá: Ave-Maria dos seus andores, rogai por nós os pecadores....

Uma festa em ascensão O público do Círio de Nazaré, que se realiza há mais de dois séculos, registrou um crescimento de 1000% dos anos 1940 aos 1990 ¿ segundo números do Dieese-PA. Estas são as médias oficiais:

Década de 40

120 mil pessoas

Década de 50

200 mil pessoas

Década de 60

350 mil pessoas

Década de 70

500 mil pessoas

Década de 80

1 milhão de pessoas

Década de 90

1,5 milhão de pessoas

*A repórter viajou a convite da Companhia Vale do Rio Doce