Título: Pagadores de promessa
Autor: Cleusa Maria
Fonte: Jornal do Brasil, 15/10/2005, Caderno B, p. B1
Se o céu é aqui, como diz Fafá de Belém, para eles, às vezes, é purgatório. São os pagadores de promessa. Carregam nos ombros cruzes (de todos os tamanhos), como Leonardo Vilar no premiado filme brasileiro. Outros equilibram tijolos e casinhas de miriti na cabeça, como o pedreiro José Carlos Guimarães, que conseguiu comprar casa própria aos 20 anos de procissão. Mulheres levam anjos ao colo, uma delas é Roseni com a filha Estefânia, de 3 anos, já curada das crises de asma. Um carrega a reprodução gigante da carteira de trabalho. Outro sai todos os anos com o corpo coberto de caranguejos, para agradecer a fartura de alimento no mangue. Muitos são estudantes que passaram no vestibular. Os promesseiros seguem no início da procissão, onde a densidade demográfica é menor. Protagonizam cenas dramáticas, como Josefina Teles Beça, 30 anos. Vítima de um coágulo cerebral, ela prometeu sair de joelhos durante três anos, se ficasse curada. Suada, rosto exangue, cabeça pendendo de exaustão, ela conta que conseguiu - conforme comprovou o médico. Durante os dois próximos anos, sairá se arrastando no asfalto, protegida por um cordão de colegiais uniformizados, sobre pedaços de papelão, que as amigas vão estendendo a cada movimento da devota. Ali, segundo os romeiros, estão os casos extremos de doença e morte. Mas nem todos. No meio da procissão, que fica mais compacta do começo para a segunda metade, um solitário torcedor do Flamengo protege a cabeça do sol com a bandana do time. Milagres acontecem.