Título: A estrela de Belém
Autor: Cleusa Maria
Fonte: Jornal do Brasil, 15/10/2005, Caderno B, p. B1
Patrimônio cultural do Brasil, o Círio de Nazaré arrasta uma onda de 2 milhões de fiéis na capital paraense
BELÉM - As imagens são eloqüentes. Cinematográficas. Algo como os hebreus atravessando o Mar Vermelho, em Os dez mandamentos, de Cecil B. DeMille. Ou, mais recentemente, as cenas de multidões em A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Só que no mês de outubro, em Belém do Pará, o nome da santa é Nazaré, a quem todos chamam de Naza ou Nazica. E, além da fé e da paixão, o que se vê é uma mistura de devoção, força e festa, que combina tão bem quanto pato, tucupi e pimenta-de-cheiro. Este ano, a maior manifestação da cultura popular no país (considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, desde 2004, um bem imaterial do patrimônio brasileiro) bateu o recorde de público de todos os tempos. O 213º Círio de Nazaré (pela contagem oficial) arrastou cerca de 2 milhões de pessoas na procissão, que percorreu os 3,6 quilômetros que ligam a Catedral Metropolitana à Praça do Santuário, em frente à Basílica de Nazaré. Lotou hotéis; restaurantes; barracas no Mercado-Ver-o-Peso; feirinhas de brinquedos de miriti; praças; ruas; e janelas da Cidade Velha. Vale lembrar que a população da região metropolitana está em torno de 1,6 milhão de habitantes. Ou seja, perto de 400 mil romeiros chegaram à capital paraense, onde sempre no segundo domingo de outubro realiza-se o Círio de Nazaré. Entre eles 63. 240 mil eram turistas brasileiros e estrangeiros; o resto era da região.
Na década de 40, 120 mil romeiros acompanhavam a santa. Dos anos 80 para cá ¿ quando chegou a 1 milhão de devotos ¿ novas procissões foram se incorporando à monumental manifestação de domingo. Também este ano, durante três dias, três réplicas da imagem original, estreando ricos mantos bordados e dentro de berlindas enfeitadas com primor, foram seguidas pela massa, que suou debaixo do clima quente e úmido, entre cantos, louvações, repicar de sinos e foguetório.
Na sexta-feira à tarde, a santa desfilou em carro aberto no traslado pelas ruas da cidade, abençoando doentes em cadeiras de roda na porta de hospitais, até a matriz do município de Ananindeua, a 42,7 quilômetros de Belém. No sábado, venceu outros 23,2 quilômetros para chegar ao distrito de Icoaraci, de onde saiu em romaria fluvial na corveta H 37 da Marinha, de volta à capital.
Este ano, a procissão fez deslizar pelas águas da Baía de Guarajá 400 embarcações. Enfeitadas com balões e entupidas de devotos, elas navegaram entre ave-marias, pai-nossos e a trilha sonora da festa. Ora o carimbó; ora o hino Vós sois o lírio mimoso (...) nos altos céus onde mora a luz da nossa esperança (...); ou o refrão do samba-enredo Festa do Círio de Nazaré, tema do desfile da Unidos de São Carlos (hoje Estácio), gravado por Elza Soares nos anos 70, e reciclado pela Viradouro em 2004: ó virgem santa, orai por nós... Na chegada à escadinha do porto de Belém, a berlinda seguiu por outros 2,6 quilômetros acompanhada por uma romaria de cerca de 8 mil motociclistas.
A pequena madona de madeira foi encontrada, em 1700, pelo caboclo Plácido José de Souza, às margens do hoje aterrado igarapé do Murucutu. A origem da Virgem, que traz ao colo o Menino Jesus, segurando uma esfera azul, é a cidade de Nazaré, na Galiléia. Ao longo do ano, a santa verdadeira não sai do altar-mor da Basílica de Nazaré ¿ inspirada na Igreja de São Paulo, em Roma, e erguida no século 20 no local onde foi encontrada. Mas durante a quadra nazarena ¿ período do Círio e do Recírio, que vai até o dia 23 ¿ a imagem desce em cerimônia litúrgica para perto dos devotos.