Título: "Prefiro renunciar a ser forçado a isso"
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Fonte: Jornal do Brasil, 17/10/2005, País, p. A8
Chefe da Scotland Yard admite entregar o cargo
LONDRES - O comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair, admitiu que pode ser obrigado a deixar o cargo em breve devido a pressões decorrentes do caso do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto no metrô por policiais que o confundiram com um terrorista. A informação foi publicada ontem no jornal inglês The Sunday Times. Ian Blair demonstrou intenção de renunciar ao cargo durante uma recente reunião com empresários, na capital britânica. Ao descrever as pressões da opinião pública ¿ incluindo as da família de Jean Charles e de sua advogada, Gareth Peirce, da Grã-Bretanha ¿ disse:
¿ Prefiro renunciar a ser forçado a isso.
No encontro, no Windsor Leadership Trust, Blair reconheceu que seu trabalho no caso está sendo investigado pela Comissão Independente de Queixas contra a Polícia (IPCC, sigla em inglês), encarregada de averiguar todas as circunstâncias da morte do eletricista, assassinado com oito tiros, durante a caçada aos terroristas responsáveis pelos ataques de 7 de julho à cidade. Uma carta dirigida a seus superiores, revelada recentemente, mostrou que Blair tentou impedir a investigação independente, logo após o incidente. Espera-se que o resultado da investigação seja concluído até o fim do ano.
A polêmica em torno do nome do comissário-chefe ganhou força um mês depois da morte do brasileiro, quando jornais britânicos revelaram informações que desmentiam a versão oficial da polícia. Nos dias posteriores ao incidente, Blair chegou a dizer que o brasileiro estava vinculado com os atentados contra a rede de transporte de Londres, em julho, e que teria resistido à prisão na estação de Stockwell, onde foi morto.
Os documentos oficiais divulgados em agosto pela imprensa, no entanto, mostraram que Jean Charles passou andando pela catraca da estação e não as pulou; que os policiais só se identificaram após entrar no trem do metrô e que ele foi agarrado por um policial antes de ser morto. Além disso, nas fotos da cena do crime, o brasileiro vestia uma jaqueta jeans em vez do casaco grosso descrito pela polícia. O traje volumoso havia sido usado como justificativa para as suspeitas dos agentes que o seguiram até a estação.
Autoridades policiais de alto escalão ouvidas pelo The Sunday Times afirmaram que as apurações independentes do caso vão revelar uma ¿história de horror¿.
¿ Blair foi obviamente atingido pelo caso. Dá para perceber que ele está visivelmente envelhecido ¿ disse uma das fontes.
Em suas declarações dos últimos dias, Blair parece uma figura bem diferente da que defendeu a política do ¿atirar para matar¿ no combate ao terrorismo e chegou a elogiar a atuação da polícia na abordagem do caso. Em sua palestra sobre a liderança proferida na última quarta-feira, o comissário admitiu que erros foram cometidos no caso Jean Charles e que seus subordinados não conseguiram evitar que informações sigilosas vazassem para a imprensa.
Pelo menos 10 policiais envolvidos na ação do metrô de Stockwell teriam recebido notificações disciplinares da polícia. A lista inclui os oficiais do grupamento CO19, que comandou a ação na estação. Oficiais de alto escalão também podem ter de responder por acusações de homicídio. Segundo o jornal Daily Mail, um dos alvos da investivação do IPCC é a policial Cressida Dick, de 44 anos, que poderia sofrer um indiciamento por homicídio culposo. Foi a comandante quem pôs em ação a Operação Kratos, relacionada à busca de homens-bomba. Ao invocar o procedimento, ela teria dado a autorização para os policiais atirarem preventivamente na cabeça do suspeito.