Valor Econômico, n. 4959, 13/03/2020. Brasil, p. A5

Crise surgiu quando economia estava decolando, diz Guedes

Lu Aiko Otta
Mariana Ribeiro


Num dia de pânico nos mercados globais por causa da pandemia do coronavírus, o ministro Paulo Guedes (Economia) usou o tempo pretérito para se referir ao processo de aceleração da atividade econômica brasileira. “Eles [economias centrais] estão descendo quando estávamos iniciando nossa decolagem”, disse. “Estávamos em plena reaceleração do crescimento".

Ele acrescentou que, no último trimestre de 2019, a economia cresceu 1,7% acima do verificado no ano anterior. “Já estávamos entrando em 2%, que seria a nossa estimativa para este ano.”

Na noite de quarta-feira, na reunião de emergência com o Congresso para discutir o coronavírus, Guedes disse que a taxa pode ficar em 1%, num cenário sem reformas e com a epidemia agravada. “Tem alguns setores que sabemos que serão impactados: viagens internacionais, serviços em geral”, exemplificou. “Tem uma série de efeitos que estamos analisando e nos preparando para enfrentar ali na frente.”

Os ministérios estão elaborando sugestões de medidas para combater os efeitos do coronavírus. Além do reforço de R$ 5 bilhões no orçamento do Ministério da Saúde, estão em construção medidas setoriais. Ontem, o Valor informou que o Ministério da Infraestrutura propôs zerar as alíquotas do PIS/Cofins sobre o querosene de aviação. A medida está em discussão internamente no governo. Já vinha sendo debatida antes da crise, como parte de uma agenda para reduzir custos e atrair mais investimentos para o setor.

Guedes informou que “certamente” há espaço para medidas emergenciais além das reformas, que têm sido apontadas por ele e por sua equipe como a melhor resposta para a crise. Mas, explicou ele, nesse caso o Ministério da Economia atua de forma subsidiária ao Ministério da Saúde.

Ele relatou que, na reunião que teve com parlamentares na quarta-feira, foi questionado pelo deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) possibilidade de adoção de medidas emergenciais. Segundo o ministro, o que falta é espaço fiscal para adotá-las. “Se andarmos com as reformas, abrimos espaço fiscal e usamos”, afirmou. “Estamos abertos a isso.”

Pelo lado do crédito, porém, há espaço para adotar medidas. “Temos a ferramenta monetária para usar”, disse. É uma situação diferente da vista em grandes economias, que já esgotaram o uso desse instrumento e por isso analisam a adoção de estímulos fiscais.