Valor Econômico, n. 4959, 13/03/2020. Política, p. A6

Presidente desarma manifestações do dia 15
Marcelo Ribeiro
Rafael Bitencourt
Renan Truffi
Cristiane Agostine
Carolina Freitas
Fabio Murakawa 


Pano de fundo da crise entre o Executivo e o Congresso, as manifestações que haviam sido agendadas para domingo foram adiadas devido ao avanço do coronavírus. Segundo os organizadores, ainda não há previsão para uma nova data e a decisão foi tomada após um pedido do presidente Jair Bolsonaro. Depois de ter apoiado o movimento, Bolsonaro afirmou, em rede nacional de rádio e televisão, que não há motivo para pânico. Mas destacou que não é recomendável participar de concentrações populares.

Para Bolsonaro, não se podemos esquecer que o Brasil mudou. “O povo está atento e exige de nós respeito à função e zelo pelo dinheiro público”, afirmou em seu pronunciamento. “Por isso, as motivações da vontade popular continuam vivas e inabaladas. ”

Pouco antes, durante transmissão nas redes sociais, o presidente repetiu que “político que tem medo de manifestação não serve para ser político”. Frase semelhante já havia irritado os congressistas, com quem Bolsonaro disputa o controle de uma verba milionária do Orçamento. Ele destacou, por outro lado, que as instituições em si têm que ser preservadas.

Segundo a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), o adiamento atendeu a um pedido do próprio presidente e a decisão teve como objetivo “prevenir os brasileiros contra o contágio do novo coronavírus”. “Gostaríamos muito de ir para as ruas, mas foi concluído que a melhor atitude é mudarmos nossa abordagem. É um momento de incertezas e riscos. Parabenizo o presidente Bolsonaro que, como um verdadeiro estadista preocupado com a saúde da população, tomou a melhor decisão”, disse Zambelli.

O líder do Movimento São Paulo Conservador, Ted Martins, confirmou o adiamento dos atos. “Para evitar o caos social e para que não sejamos acusados de disseminar o coronavírus, estamos adiando os atos que convocamos para o dia 15. Estamos atentos ao que disse o presidente na live há pouco e achamos melhor agendar uma nova data, a ser definida em breve”.

Do lado oposto do front, as centrais sindicais passaram a estudar a suspensão das manifestações marcadas para o dia 18 contra medidas do governo Jair Bolsonaro. Na segunda-feira, dois dias antes dos atos previstos em todo o país, sindicalistas se reunirão novamente para decidir se vão manter ou cancelar os protestos. De acordo com o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, ainda não há consenso entre as entidades. “Não temos o direito de colocar em risco o trabalhador”, disse.

Em Brasília, embora tenha editado uma série de medidas para tentar conter o avanço do vírus, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), tinha decidido não impor nenhum tipo de restrição à manifestação que estava sendo preparada. Por outro lado, também não ofereceria infraestrutura e reforço na segurança do evento.

Nenhuma exigência foi colocada aos organizadores dos protestos, mas ele também não se comprometeu a oferecer nenhuma infraestrutura de higienização ou segurança pública. O governo distrital concluiu que não poderia impor medidas que pudesse sugerir o cerceamento à livre manifestação política da população.

Desde quarta-feira, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou pandemia mundial da covid-19, Ibaneis assinou dois decretos relacionados às medidas de precaução. O governador proibiu, por exemplo, a realização de shows e eventos esportivos com mais de cem pessoas e suspendeu temporariamente atividades educacionais em todas as escolas e universidades e faculdades, das redes pública e privada.