Título: Em campanha
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 17/10/2005, Opiniao, p. A14
Numa semana decisiva, balizada pela instauração dos processos contra os deputados denunciados pelas CPIs dos Correios e do Mensalão, constatam-se dois díspares retratos sobre o funcionamento do sistema político brasileiro. De um lado, a mais séria crise política desde o impeachment de Fernando Collor de Mello chega a uma nova fase, em que, depois das atividades paralelas de três comissões legislativas, os suspeitos de receber a odiosa propina distribuída no Congresso estarão sendo julgados na mesma instância, o Conselho de Ética. Tumores foram lancetados sem que houvesse necessidade de qualquer ruptura institucional. Tampouco a economia foi contaminada pelas investigações. (Embora, ressalte-se, Congresso e governo exacerbaram sua capacidade de manter-se paralisados.)
Do outro lado da crise, o Palácio do Planalto aproveita a estabilidade ou melhora na imagem do governo para potencializar o que considera a superação da crise. Campanhas publicitárias - que já estão ou entrarão no ar - tentarão mostrar ao país o paraíso da gestão petista. A estratégia oficial é mostrar, por exemplo, investimentos em infra-estrutura, como geração e distribuição de energia, estradas, saneamento e habitação. O Fome Zero, esquecido desde as primeiras turbulências provocadas por Waldomiro Diniz, reaparece. Acrescente-se uma campanha voltada para os jovens. Somadas, tais propagandas consumirão alguns milhões e servirão de combustível para buscar circunscrever a crise do ''mensalão'' e de outros malfeitos não explicados aos poucos parlamentares situados no corredor da cassação ou da renúncia.
Segundo a legislação brasileira, governantes legitimamente eleitos têm o direito de promover campanhas do gênero, convencendo aos governados, por meio delas, a tese de que ajudaram a transformar o país. Ademais, as propagandas em questão integram o orçamento previsto para a União: o governo pode gastar R$ 150 milhões com publicidade por ano. Uma exorbitância, porém. E uma estratégia que, embora faça parte do jogo, seja moralmente condenável, sobretudo porque aliados do governo e comandantes petistas, a começar pelo companheiro-mor, tenham dedicado inesgotáveis energias (verbais e financeiras) para tentar estancar a crise - não com apoio irrestrito às investigações em curso no Congresso, mas por sucessivas cirurgias conduzidas para abafá-las. Em outras palavras, na república petista, as crises cessam por inanição, por outras crises ou pela mão dos publicitários oficiais.
Em defesa do presidente Lula, o mérito de ter pessoalmente escapado ileso de três CPIs. Sofreu desgastes, mas não é visto, segundo as pesquisas de opinião, como ''corrupto'' nem envolvido diretamente nas acusações de corrupção - o que lhe anima a usar o patrimônio político preservado nas eleições de 2006. Seu governo e o PT, contudo, foram duramente atingidos pela crise. Do partido sobraram apenas os escombros da imagem de retidão ética que construiu até o desembarque ao poder. Do governo restam as interrogações sobre os resultados efetivos de seus principais programas. Não são raros os exemplos de análises mais descrentes - exceto sobre o peso eleitoral das políticas assistencialistas e populistas, que infelizmente transformam projetos sociais em trampolim para ganhos nas urnas.