Título: Pastoral do STF fez um favor ao Brasil
Autor: AUGUSTO NUNES
Fonte: Jornal do Brasil, 18/10/2005, País, p. A2

No físico e nos modos, o deputado que virou celebridade neste inverno medonho não exibe nenhum parentesco com as duas versões anteriores de Roberto Jefferson. A primeira existiu nos anos 70, enquanto o jovem nascido em Petrópolis apresentou o programa ''O Povo na TV''. Desenvolto, loquaz, cabeleira de zagueiro argentino aprisionada no rabo-de-cavalo, podia ser pesado em arrobas. Os óculos antiquados contrastavam com os camisões coloridos. Em segundos, passava da brandura à brutalidade. Milhares de espectadores apreciavam o estilo. E o artista decidiu mudar de palco. Em 1982, com 30 anos, o promissor advogado criminalista se elegeu deputado federal. Usava os mesmos óculos e passara dos 120 quilos. Mas retoques no visual e no comportamento produziram a segunda versão de Jefferson. Desembarcou no Congresso um homem menos falante, com cabelos curtos e ternos cinza-brasília. Enquanto estagiava no baixo-clero, aperfeiçoou a oratória em batalhas nos tribunais.

Ele enxergou a porta de saída do semi-anonimato na crise que levaria ao impeachment de Fernando Collor. Incorporado à tropa de choque do presidente moribundo, logo chegaria ao generalato a bordo da espantosa agressividade. Na tribuna, discursava com um revólver na cintura. No plenário, interrompia inimigos aos berros. Na CPI, esbanjava truculência. Terminada a batalha na Câmara, o criminalista de raciocínio rápido se reunia com outros advogados de Collor.

Na virada do século, depois de uma longa hibernação, apareceu na Câmara um Jefferson radicalmente repaginado. Os ternos, as gravatas, os sapatos, o penteado --- tudo parecia saído de revistas de moda masculina. Passara a usar lentes de contato. O rosto fora remoçado pela plástica. A redução cirúrgica do estômago, que lhe subtraiu algumas arrobas, redesenhara a silhueta. O gordo brigão e suado se tornara esbelto e elegante.

O desconcerto dos colegas foi ampliado por outra novidade: as sessões de tiro-ao-alvo haviam sido trocadas por aulas de canto lírico. Com aulas diárias, uma professora cuidava de aveludar a voz e aumentar o repertório do cantor aprendiz. Era um novo Roberto Jefferson. Mas não há bisturi capaz de corrigir defeitos de fabricação, e o velho Jefferson reaparecia periodicamente. O temperamento explosivo, adormecido ao som de óperas, era despertado com freqüência pelo som da fúria.

Jornalistas que o criticaram com mais dureza continuaram a receber bilhetes ameaçadores, redigidos na linguagem dos cortiços. Fui destinatário de um deles no meio da temporada eleitoral de 2002, depois de comentar no JB estranhas parcerias político-partidárias. Jefferson foi parceiro de Ciro Gomes no primeiro turno. Seria companheiro de Lula no segundo.

Em quatro ou cinco linhas, avisei que a metamorfose visual não alterara a alma essencialmente truculenta do general collorido. No mesmo dia, Jefferson enviou-me por fax um recado que me qualificava de ''veado'', ''proxeneta'', ''canalha'', ''covarde'' e outros termos pouco edificantes. No fecho, o remetente avisava que preferia resolver pendências à bala.

Reproduzi a mensagem na íntegra e retruquei com aspereza. No dia seguinte, entrei com uma ação judicial para enquadrar o deputado nos crimes que comprovadamente cometera. Os advogados me alertaram que só seria possível castigá-lo com a autorização do Supremo Tribunal Federal. Pedi que fossem adiante. Não me pareceram alegres com a causa. De vez em quando eu pedia informações sobre o processo. As respostas eram sempre evasivas.

Acabo de saber por um amigo jornalista que, em setembro de 2004, o processo foi arquivado pelo ministro Eros Grau ''por decurso de prazo''. Na defesa, Jefferson alegou que não escreveu o bilhete que tem uma assinatura idêntica à do deputado. A Pastoral Parlamentar do STF achou muito bom o argumento. E deixou o caso morrer de inanição. Se houvesse julgamento de verdade, Jefferson seria condenado. Como o caso foi resolvido na Pastoral, o acusado ficou livre para desencadear a crise e brilhar como bandido-herói no maior novelão já produzido pela vida real.

O Brasil deve alguma homenagem ao caridoso Eros Grau. Involuntariamente, o ministro tornou possível a drenagem do Pântano do Planalto. E me dispensou do remorso que estaria sentindo se, também involuntariamente, eu a tivesse evitado.