Título: Petistas ignoram pressão de Lula
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Fonte: Jornal do Brasil, 18/10/2005, País, p. A3
Os petistas acusados de envolvimento no mensalão frustraram ontem o Palácio do Planalto, que apostava na renúncia coletiva para dar fim rápido à crise política. Ao contrário das expectativas, só um deputado do PT, Paulo Rocha (PA), ex-líder da bancada, foi para casa por vontade própria. Ele foi seguido por José Borba (PMDB-PR), que também liderou os peemedebistas. Com a manobra, os ex-parlamentares evitam a cassação por quebra de decoro. Esgotado o prazo para os pedidos de renúncia, o Conselho de Ética da Câmara abriu processo contra os outros 11 parlamentares investigados nas CPIs dos Correios e do Mensalão.
A maioria do Congresso e do governo acreditava que entre quatro e dez deputados renunciariam ao mandato com o objetivo de concorrer às eleições de 2006. Mas o Planalto não contava com a intervenção do ex-ministro da Casa Civil, deputado José Dirceu (PT-SP), cuja participação nas negociações que levaram os deputados petistas a abortar uma eventual renúncia coletiva estudada durante o fim de semana, foi decisiva. A atuação de Dirceu nos bastidores nos últimos dias o colocou mais uma vez em campo diametralmente oposto ao do Palácio do Planalto.
Numa articulação liderada pelo ministro da Coordenação Política, Jaques Wagner, o Planalto tentou convencer os parlamentares ameaçados de perder o mandato por eventual quebra de decoro a abrir mão do mandato. Em Roma, onde se encontrou com líderes de esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer a assessores que a renúncia dos parlamentares petistas seria o melhor caminho, uma vez que a crise tenderia a se esgotar por falta de combustível da oposição. Também participou das costuras políticas para assegurar a legenda do PT a quem renunciasse. Mas o tiro saiu pela culatra. Na avaliação de auxiliares do presidente, não fosse a intervenção de Dirceu, o desfecho poderia ter sido diferente. Até a noite de anteontem, apenas Professor Luizinho (PT-SP) estava convicto do enfrentamento em plenário. João Magno (PT-MG) ainda consultaria advogados e assessores antes da decisão derradeira. Os demais, inclusive o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), acordaram pela manhã com a hipótese da renúncia em mente.
José Mentor (PT-SP), Josias Gomes (PT-BA), Paulo Rocha (PT-PA) chegaram a ensaiar a renúncia conjunta em encontro na residência do petista paraense. Foi quando entrou na cena José Dirceu. Mexeu com os brios dos companheiros, os exortou a luta e prometeu ajudá-los na absolvição em plenário. Assim, apenas Rocha, que já havia recebido o sinal verde da militância, levou a decisão a cabo. Cerca de uma hora antes de se esgotar o prazo para a renúncia, Josias Gomes chegou a telefonar para Dirceu dizendo-se pressionado a prescindir do mandato. Foi demovido. Mentor também desistiu.