Título: O dia do ajuste de contas
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Fonte: Jornal do Brasil, 18/10/2005, Internacional, p. A9
Acusado de inúmeros crimes capazes de levá-lo à Corte Internacional de Justiça de Haia, como o genocídio contra os curdos, o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein estará no banco dos réus amanhã por outro caso. Em um julgamento conveniente por evitar a exposição das íntimas relações entre Bagdá e os Estados Unidos durante boa parte do regime deposto, a promotoria conseguiu reunir provas técnicas consideradas suficientes para uma condenação, quem sabe até à morte: a chacina de Dujail, em 1982, quando 500 xiitas foram mortos ou sumiram.
Na época, o poder do ditador era incontestável. Saddam foi a Dujail, 35 km ao Sul da capital, para uma de suas aparições. O comboio tinha cinco carros, entre eles a Mercedes branca blindada do ex-presidente. Ao longo das ruas, era saudado por uma pequena multidão. A segurança era leve e não impedia que crianças corressem ao lado do carro, embora o fato de o país ter iniciado, 18 meses antes, a guerra contra o Irã tornasse o ambiente hostil. A reverência existia em função do medo. Saddam discursou, visitou depois algumas famílias - para ser fotografado com crianças - e seguiu caminho pela vila.
No caminho, atiradores ligados ao proscrito partido xiita Dawa, emboscaram a comitiva, mirando a limusine. O ditador não foi atingido, mas imagens feitas por um cinegrafista oficial mostram que o incidente o havia perturbado. Segundo os promotores, na volta, o grupo interrogou um homem perto do local. Sem descobrir quem o havia emboscado, Saddam ordenou a caça aos supostos atacantes e suas famílias. Por conta disso, 140 homens foram executados no mesmo dia e dezenas de outros nos meses e anos seguintes. Mulheres e filhos dos acusados foram confinados na prisão de Abu Ghraib. Depois, foram mantidos por anos em um campo de concentração no deserto, perto da fronteira com a Síria. As terras cultivadas por essas famílias às margens do Tigre foram salgadas e receberam lixo doméstico.
Hoje, os moradores de Dujail que tiveram parentes seqüestrados ou mortos não vêem a hora de acompanhar o julgamento.
- Quero justiça pelos meus sete irmãos mortos e isso significa que quero Saddam executado sete vezes - afirma Um Ahmed. - Eles foram acusados de serem do partido Dawa. Nunca mais os vi - completa ela, frisando que um dos irmãos tinha 12 anos e foi levado de dentro da sala de aula. A própria Um, sua irmã, sua mãe cega e uma cunhada grávida foram presas e interrogadas pelo Serviço Secreto. Passaram 11 meses em Abu Ghraib e quatro anos no campo de Samawa, perto da Arábia Saudita.
A reação de Saddam Hussein começou com um ataque de helicópteros nas fazendas do entorno de Dujail. Soldados depois desembarcaram e destruíram as plantações e o solo. Casas foram demolidas e árvores arrancadas. Até hoje a área é desértica. O meio-irmão do presidente, Barzan Ibrahim al-Tikriti, ex-chefe da temida polícia Mukhabarat, organizou a matança, enquanto Taha Yassin Ramadan, o vice de Saddam indicava as casas e fazendas para o ataque.
- A cidade foi devastada, virou ruína - diz o prefeito Mohammed Mahmoud al-Majid, acrescentando que o total de fuzilados chegou a 225, com todos os corpos recuperados. Mais de 200 sumiram, a maioria adolescentes, já que os maiores tinham sido enviados para lutar contra o Irã.
- Quero justiça, nada mais. Estarei na corte- avalia.
O julgamento de Saddam acontecerá em meio a dois fatos importantes. O primeiro é a vitória do Sim no referendo sobre a nova Constituição. O segundo é o choque provocado pela morte de 70 iraquianos, domingo, em um ataque aéreo americano sobre Ramadi. A cidade é tida como reduto rebelde pelos militares dos EUA. De acordo com o comando, os mortos eram guerrilheiros, mas testemunhas afirmam que pelo menos 39 eram civis, incluindo 12 crianças.
Vinte das vítimas foram atingidas quando remexiam nos destroços de um jipe americano, destruído na vila de Al-Bu Ubaid na véspera em uma ação que matou cinco soldados americanos. Retirar a sucata metálica, sobretudo dos veículos militares dos EUA, é uma fonte de renda para muitas famílias pobres. Os americanos alegaram que os ''terroristas'' estavam plantando outra bomba quando foram neutralizados por um jato F-15.