Título: A extensão da crise
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 18/10/2005, Opinião, p. A10
A consumação da renúncia de apenas dois deputados, somada à instauração de processos contra 11 parlamentares no Conselho de Ética da Câmara, constitui uma péssima notícia para o governo do presidente Lula. A Câmara, afinal, precisará conviver nos próximos meses com 14 dolorosos processos que poderão resultar em cassação - que somam ao balanço de cinco renúncias e uma cassação. Dificilmente se encerrarão este ano. Se houver o recesso parlamentar no fim do ano, é possível que os casos se estendam até meados de abril de 2006 - coincidindo com o momento em que os partidos decidirão sobre suas alianças para a sucessão presidencial. Uma maior quantidade de renúncias, ao contrário, reduziria a força negativa (para o governo, sublinhe-se) da continuação da crise. Não foi à toa, portanto, que os comandantes petistas insistiram para que todos os nomes citados no relatório preliminar das CPIs dos Correios e do Mensalão renunciassem ao mandato até as 18h de ontem - horário da abertura do processo. Um empenho constrangedor. Pressões e recados balizaram a estratégia do Planalto para estancar a crise.
Candidatos à guilhotina foram aconselhados a usar o truque da renúncia para evitar a perda dos direitos políticos. Todos voltarão à Câmara nas eleições de 2006, sussurraram os conselheiros palacianos, crentes na premissa de que logo o povo esquece. E com tal esquecimento, leva-se para o ralo o espanto nacional com toda sorte de patifarias - uma vasta galeria na qual se incluem malas e mensalões, contratos hiperfaturados, porcentagens desviadas de bilionárias verbas de publicidade e negociatas envolvendo bancos e empresas, entre outros malfeitos.
A estratégia não deu certo. De seis petistas, apenas um renunciou. Os outros enfrentarão a batalha contra a cassação no Conselho e no plenário da Câmara. Nesse caso, o que é péssimo para o governo se transforma em boa notícia para o país. Embora prevista nas regras de funcionamento da Câmara, a renúncia constitui a a estratégia habitual daqueles que evitam submeter-se ao julgamento do plenário, buscam manter o direito de se candidatar nas próximas eleições e contribuem para turvar o necessário processo de faxina na política. Trata-se de uma sangria que não pode acabar. Convém à Câmara responder à altura dessa necessidade.