Título: Um tempo de não lembrar
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 18/10/2005, Outras Opiniões, p. A11
Não há dúvida. O período histórico que vivemos vai deixar lembranças bem negativas, em futuro não obrigatoriamente distante. Nem todas, é claro, por responsabilidade exclusiva do governo Lula. Mas todas, certamente, encontrando terreno fértil para nele se potencializar. Futebol e meio ambiente se tornaram absolutamente compatíveis, na forma de beirar o alambrado do caos, com o quadro inorgânico implantado na política. Espaço, aliás, onde não há fórmula de absolvição: a responsabilidade é exclusiva da consolidação do neolulismo - populismo rasteiro, resultante da guinada doutrinária que, diferentemente das derrotas eventuais anteriores da esquerda brasileira, geradora de heróis, pode ter jogado no lixo da história alguns quadros importantes do saudoso PT. Para além, é claro, do significado original da legenda.
Oportuna, portanto, a nota de Ricardo Boechat numa de suas últimas colunas, aqui no Jornal do Brasil, ao comentar a diferença de reações do presidente, no caso do famigerado agrobusiness. Quando produz superávit de exportações, é obra do governo. Quando se vê surpreendido pela febre aftosa, é culpa dos empresários rurais. E mais oportuna ainda, saltando do grande empresário rural para a agricultura familiar, ou para os incontáveis acampamentos dos sem-terra em beira de estradas, a entrevista de Stédile a Juliana Rocha, no JB de ontem.
Esta, principalmente, deve ser motivo de reflexão para intelectualidade paulista que, a despeito de tudo, continua fascinada pelo mito da liderança operária, como se ela fosse infalível ou não compatível com atos de traição. Stédile revela que o ''amigo'' Lula conseguiu ser mais reacionário, na questão da reforma agrária, do que o foi o mandarinato de FHC. Procede. Enquanto a média anual de assentamentos foi de 60 mil famílias com FHC, Lula as limitou a 44 mil.
Sua entrevista, portanto, é o que se esperava de uma autêntica liderança popular depois da rasteira que o presidente da República lhe passou na seqüência do último encontro no Planalto.
Porque é assim. Valendo-se do imenso patrimônio político acumulado ao longo de duas décadas e meia de liderança de oposição, Lula encontra espaço para manobras ilusionistas contra seus históricos ''companheiros''. Recebeu-os em palácio para acolher documento em que MST, CUT e UNE apresentavam algumas exigências para justificar a manutenção do apoio ao governo. De fundamental, dois pontos - mudança radical da política econômica e reformulação dos conceitos e prioridades nas alianças partidárias.
Os dirigentes das entidades ainda não deviam ter alcançado suas bases, e a resposta do governo já vinha, sem contemplação. Lula se fazia fotografar em cumprimentos efusivos com Renan Calheiros e Michel Temer, para além de, sem atenção ao pudor, entregar o Ministério das Cidades a um apadrinhado - até hoje mantido no cargo - do então ''companheiro'' Severino Cavalcanti. Enquanto isso, ao vivo e a cores, o ministro Palocci anunciava a todo o país não haver a menor possibilidade de mudança de rumo na macroeconomia. O que não cessa de ser confirmado quotidianamente.
Que a direção da CUT, assim como a da hoje inexpressiva UNE, se mantivesse silenciosa, nada a comentar. Está neutralizada há algum tempo. Era do MST que carecia surgir a reação digna, como a registrada na entrevista de Stédile. Mais que digna, aliás, desmistificadora. Pois nada melhor como avaliação do verdadeiro caráter do governo Lula do que a síntese contida na frase: ''Acho que nós vamos mudar de nome, de MST para Banco do MST para ver se o governo nos dá bola''. Ou seja, já não existem ilusões quanto ao fato de o contingenciamento da verba orçamentária ter por mote os compromissos com os infindáveis juros, sabujamente destinados à agiotagem internacional.
Com a entrega do PT a Berzoini o cenário só se agrava. Era o elo que faltava depois do estiolamento da CUT e da UNE. O ex-ministro, flagelo dos aposentados mais idosos e dos direitos sociais dos trabalhadores e servidores públicos ainda em ação, já deixou claro. A partir do resultado do último pleito interno, não há mais justificativa para ações dissidentes. Quem ficou, ficou, com compromisso estatutário de fidelidade às decisões majoritárias, agora incontestáveis.
Ainda bem que novas alternativas surgem para a esquerda combativa. A presença significativa da senadora Heloisa Helena nas pesquisas de opinião vem provar que, a despeito de todas as áreas de sombra da história da esquerda brasileira, um sol sempre surge no horizonte.