Título: O efeito cortina de fumaça
Autor: Ives Gandra Martins
Fonte: Jornal do Brasil, 20/10/2005, Opinião, p. A11
Temos de evitar o que vemos todos os dias: a população tentando solucionar - pela bala - suas mazelas
Não sabemos as conseqüências sobre o comércio de armas e munições do referendo mal formulado que ocorrerá dia 23 próximo. Nem mesmo se quem ganhará será o SIM ou o NÃO.
Mas, com certeza, há bem intencionados de um lado e de outro. No lado do SIM, muitos estão conscientes de que abrem mão de um direito individual de escolha em benefício do risco que traz a proliferação de armas na sociedade. No lado do NÃO, porque há muitos que defendem com rigor a liberdade individual de escolha, mesmo sabendo que não utilizará seu direito por entender que a arma atrai violência. São dois lados virtuosos da controvérsia.
Mas, em ambos os lados, existem concepções e erros que precisam ser esclarecidos. Do lado do NÃO, há aqueles cujo mito é o de entender que a arma lhe dará segurança efetiva, quando se sabe que a chance que terá de responder a uma agressão é quase nula. Seja porque não terá tempo para manusear sua arma diante do fator surpresa do agressor, seja porque não está apto para usá-la. Se ocorrerá uma corrida às armas no mercado negro com o SIM, ou se ao mercado legal com o NÃO. Se as empresas fabricantes de armas nacionais e estrangeiras lucrarão mais com o NÃO à proibição, ou com a valorização do preço de seu produto com a proibição do SIM.
Os que dizem NÃO cobram do governo, ao mesmo tempo, investimento em segurança. Há aqueles que afirmam que o governo, em vez de gastar recursos com o referendo, deveria aplicá-los em investimentos sociais. Os partidários do SIM também concordam com isso, mas argumentam que propor a solução da violência no Brasil focando no debate sobre proibição ou não do comércio de armas é reduzir demais a discussão.
Uma coisa é certa, a banalização da vida no Brasil tem proporções assustadoras e adquire uma escala social. Diferente dos serial killers norte-americanos, que vez por outra matam sem motivo devido a suas patologias individuais, ou dos grupos minoritários terroristas que seguem o abominável mote ''os fins justificam os meios'', aqui no Brasil tem se matado com armas de fogo por motivos e condições especificas. Por briga de vizinho, por discussão no trânsito, entre torcedores, outros conflitos interpessoais e através dos chamados crimes contra o patrimônio. Mas o que é mais assustador do que as motivações banais das circunstancias em que ocorre é a escala dessas mortes.
Foram 36 mil vítimas de armas de fogo em 2004. Esse número é superior ao dobro de qualquer guerra das últimas décadas no mundo, e sua distribuição socialmente desigual. Um país com índices de desigualdade comparáveis aos mais pobres da África; onde os 10% mais ricos possuem 60% da renda nacional, e os 10% mais pobres apenas 2%; onde morrem a cada dia um número incontável de pessoas por doenças curáveis; onde o desemprego afeta a mais de 24 milhões de brasileiros em idade de 18 a 24 anos; onde a diferença salarial entre os que ganham mais e os que ganham menos é da ordem de 50 vezes, tratar a questão dessa maneira parece mais uma cortina de fumaça. Nisso todos os dois lados concordam. É de se perguntar, por que não foi feita uma consulta popular sobre o fim desse processo de endividamento do Brasil através do pagamento pelo governo de taxas de juros estratosféricas?
A sociedade polarizou nesses últimos dias, erradamente, sobre um dos aspectos da escala da violência no Brasil - o elevado numero de armas - e não sobre uma de suas raízes históricas e persistentes, o fruto do modelo econômico: poucos ganham muito. Desviou-se o foco de uma discussão muito maior, que mostra as chagas abertas criadas pela política neoliberalista a uma simplória discussão sobre a proibição de armas no Brasil.
Se por trás da violência que se disseminou no país estão os altos índices de desigualdade, por qual razão a consulta não se deu em torno de uma de suas principais raízes, a falta crônica de investimentos sociais? Tudo indica que se trata de uma cortina de fumaça.
Eu votarei SIM pelo aspecto pedagógico. Ou seja, para desestimular o uso de armas na resolução de conflitos entre os homens e para que as novas gerações não nos responsabilizem pela incapacidade de mudar esse modelo. Acredito que temos de evitar o que presenciamos todos os dias: a população tentando solucionar - pela bala - suas mazelas.