Título: Proposta indecente
Autor: Marcelo Kischinhevsky e Rafael Rosas
Fonte: Jornal do Brasil, 20/10/2005, Economia & NEGÓCIOS, p. A17
Sem caixa para salários, Varig paga US$ 2,5 milhões só para estender fracassada oferta pela VarigLog
Acossada por credores e enfrentando a maior crise de fluxo de caixa de sua história, a Varig pagou US$ 2,5 milhões ao fundo americano Matlin Patterson, justamente a instituição financeira apresentada pelo Conselho de Administração como tábua de salvação para injetar recursos na companhia aérea. Os recursos foram desembolsados sob a justificativa de cobrir os custos com a extensão do acordo para aquisição da VarigLog, subsidiária de transporte de cargas da empresa. Ou seja: a Varig remunerou quem se propunha a bancar sua reestruturação, sem que o negócio tenha decolado. O pagamento foi acertado com a Volo Logistics, braço operacional do Matlin Patterson, pelo presidente da Varig, Omar Carneiro da Cunha, em viagem aos Estados Unidos, no mês passado. O acordo inicial previa a venda da VarigLog à Volo por US$ 38 milhões em dinheiro, mais US$ 65 milhões em antecipação de receita com cartões de crédito. Só que o prazo expirou no dia 22 de setembro e o Conselho de Administração da Varig não obteve consenso sobre o negócio.
Cunha pediu, então, a extensão da oferta do fundo por mais um mês, tempo supostamente suficiente para angariar apoio dos credores para o plano. Os americanos concordaram, mas impuseram a condição: pagamento de US$ 1,13 milhão, a título de ¿taxa de reembolso¿, mais US$ 1,37 milhão de ¿taxa de compromisso¿. Só que o apoio não veio e surgiram outros planos de recuperação judicial, inclusive com a participação do governo, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Com isso, os recursos viraram pó.
Semana passada, quando a proposta do Matlin Patterson já era carta fora do baralho, foi quitada a primeira parcela, de US$ 900 mil. Terça-feira, véspera da assembléia de credores, a Varig pagou mais US$ 1,6 milhão.
O administrador judicial da Varig, João Raimundo Cysneiros Vianna, disse que só foi informado sobre o valor do acordo ontem, na assembléia de credores.
¿ Já sabíamos da necessidade de pagamento para a garantia estendida, mas nunca imaginamos que o valor fosse esse. Se os US$ 2,5 milhões tivessem sido citados na assembléia do Hotel Glória (na semana passada) certamente cadeiras teriam voado ¿ afirmou.
Cysneiros Vianna disse que, como administradores do dia-a-dia da empresa, os integrantes do Conselho de Administração têm o poder de realizar este tipo de pagamento sem consultar a administração judicial. Ele lembrou, no entanto, que a decisão está sujeita a questionamentos na Justiça.
¿ Eles evidentemente respondem pelos atos que praticam e pelos eventuais prejuízos causados.