Título: O show do bufão
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/10/2005, Opiniao, p. A10

Para ser mais coerente, o ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, deveria ter se sentado no banco dos réus usando um daqueles uniformes cheios de medalhas que costumava envergar nos tempos de poder. Soaria afinado com o discurso furibundo com o qual brindou o juiz a quem caberá decidir seu destino. Por ironia ou não, o impassível magistrado é curdo.

Dedo em riste, Saddam desafiou uma Corte que considera ilegítima. Era um argumento esperado e, aparentemente, agrada a quem contesta todas as decisões tomadas no Iraque após a invasão americana, muitas das quais viciadas pelo controle mantido por Washington sobre a máquina pública no novo regime. No caso do tribunal, discutir esse prisma é perda de tempo. A Justiça, qualquer que seja, será feita.

O ex-ditador sabe que seu tempo está no fim. Vai usar de todas as armas para postergar o cadafalso cuja sombra já vislumbra. Algumas, como a intimidação das testemunhas de acusação, foram vistas. Outras, como as chicanas jurídicas, ainda virão. Enquanto isso, segue o teatro do bufão que se diz temporariamente alijado de seus palácios dourados.

Nada disso impedirá que a espada de Dâmocles lhe caia sobre a cabeça. Mas é preciso que o Ocidente vigie de perto a condução do processo, porque o que separa a Justiça da vingança é a civilidade de quem sustenta a responsabilidade do veredicto. Por isso, é fundamental que se extraia de Saddam, mais do que a verborragia inútil, as memórias de suas alianças, que geraram o ambiente criminoso no qual reinou. Elas poderão mostrar quem são os cúmplices entre os seus julgadores.