Valor Econômico, v. 20, n. 4961, 17/03/2020. Brasil, p. A6

Piora do cenário leva a novas quedas das projeções para o PIB

Anaïs Fernandes


Analistas entraram em nova rodada de revisões para baixo do crescimento do Brasil em 2020, tendo em vista não só os impactos do coronavírus sobre a atividade, mas também a percepção de que a crise na saúde aprofundou desavenças políticas entre os Poderes em um nível que pode afetar o ritmo da recuperação após os choques com a epidemia.

Algumas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) do país neste ano já estão abaixo de 1%, com economistas sinalizando que esse patamar pode ser o novo teto, o que implicaria o quarto ano seguido sem aceleração.

O banco Fibra cortou sua projeção para o PIB em 2020 de 1,8% para 0,8%, na segunda revisão em menos de 30 dias, destaca o economista-chefe Cristiano Oliveira. Nos seus cálculos, não haveria recessão técnica (dois trimestres seguidos de queda), mas o segundo trimestre seria de retração de cerca de 1%, ante os três meses anteriores, quando haveria avanço de 0,2% a 0,3%. Como herança estatística, o PIB de 2021 foi revisto de 2,6% para 2,2%.

A nova projeção para este ano considera sobretudo o efeito dos choques internacionais na economia brasileira, mas Oliveira explica que sua expectativa de uma recuperação acelerada no segundo semestre (em “V”) também mudou e, para isso, os ruídos políticos pesaram. “A situação política do Brasil está piorando em vez de melhorar, sendo que já não era bom. Isso cria uma segunda onda, lá na frente, que é de deterioração adicional dos índices de confiança, do lado do empresário e do consumidor. ”

O principal risco, segundo Oliveira, é o PIB não chegar nem a esse 0,8%, o que implicaria hiato do produto (diferença entre PIB efetivo e potencial) ainda mais negativo e, assim, um risco baixista forte para a inflação. Se o cenário se mostrar correto, poderia significar que a taxa de desemprego aumentou, ele observa.

A previsão do Fibra para o mercado de trabalho em 2020 está sob revisão. Na MB Associados, a taxa de desemprego média esperada para o ano subiu de 10,9% para 11,4%. A consultoria também mudou sua projeção para o PIB em 2020, de 1,7% para 1%, cenário que considera paralisação de atividades em março e abril.

“Nesta semana devemos ver de forma mais expressiva o ‘home office’ e pessoas parando de fato de circular. Não deve ser coisa só de uma ou duas semanas”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB. Na sua estimativa, haveria retração de 0,5% no PIB do primeiro trimestre e alta de 0,3% no segundo. “Conseguiria evitar recessão. Mas o que vai determinar isso é o segundo trimestre, que está muito em aberto”, afirma.

Um problema sério, segundo Vale, é o gatilho que a crise do coronavírus desencadeou na relação entre o governo e o Congresso. “Parece haver quase um rompimento [entre os dois Poderes], embora não explícito ainda, mas muito escancarado, quando ele [presidente Jair Bolsonaro] chama as pessoas para a rua”, diz. Na sua leitura, Bolsonaro está “mudando o foco” dos embates com o PT para o Legislativo. Esse é um jogo perigoso, diz Vale, porque pode ser lido como um ataque à democracia. “Essa situação gera incerteza, insegurança, paralisia de reformas. ” Diante desse cenário, a MB também reduziu a projeção para 2021, de 2,8% para 2%.

Em quatro semanas, a projeção do banco Mizuho para o PIB deste ano saiu de 2,5% para 1%, definido na última quinta-feira. “Acho que hoje estamos na ponta um pouco pessimista, mas nas próximas semana podemos estar até entre os mais otimistas”, diz o estrategista-chefe Luciano Rostagno.

Se alguma reforma vingar neste ano, economistas apostam que será a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, que aciona gatilhos para segurar gastos públicos. “Nossa visão ainda é que o senso de urgência gerado pelo ambiente deve se sobrepor”, afirma Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria Integrada.

A casa ainda não mexeu na projeção de 1,6% para o PIB deste ano, mas o número deve ser revisto para baixo diante da percepção de que o choque não será só de oferta (restrição da produção), mas também de demanda (menor circulação de pessoas). “Para ter ideia, o nosso cenário pessimista era de PIB crescendo 0,5% [em 2020]. Não dá para descartar que fique abaixo disso no cenário básico”, diz Alessandra. Em carta de 10 de março, a LCA Consultores apontou que seu cenário adverso considerava retração de 0,4% no Brasil.

Embora tenha mantido a previsão de 2,2% para o PIB neste ano em relatório de ontem, a Instituição Fiscal Independente (IFI) adianta que o próximo documento trará baixa. Com o carregamento estatístico de 2019 (0,8%), para a projeção da IFI se confirmar seriam necessários avanços trimestrais, na margem, de 0,55%, em média. “Tendo em vista os choques de demanda e oferta introduzidos pelo coronavírus nas economias dos países, fica difícil esperar avanços trimestrais do PIB brasileiro em 2020 na magnitude apresentada, ao menos no primeiro semestre. ”