Título: Relator quer cassar Dirceu como o mentor do mensalão
Autor: Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Jornal do Brasil, 19/10/2005, País, p. A2
O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) pediu ontem, no Conselho de Ética da Câmara, a cassação do deputado José Dirceu (PT-SP) por ser o mentor do esquema de pagamento de propina a parlamentares no Congresso Nacional ¿ o mensalão. O relatório de Delgado no Conselho de Ética é uma peça contundente contra o petista e afirma que ¿sua cassação se impõe como meio de restaurar a dignidade e a credibilidade da Casa¿. Para o parlamentar mineiro, há indícios de que o ex-chefe da Casa Civil tinha conhecimento do esquema de corrupção montado para ¿perpetuar o PT no poder¿. ¿ Admitir que o deputado José Dirceu não conhecia as minúcias deste esquema não se afina com seu histórico de participação ativa nas decisões fundamentais do PT.
O relatório será votado na sexta, já que a petista Angela Guadagnin (SP) pediu vista.
Logo na abertura do texto, o relator procura desmontar a tese que Dirceu não pode ser acusado de quebra de decoro parlamentar por ser ministro na época do mensalão. Delgado lembra que a própria consultoria legislativa já afirmou que, mesmo investido no cargo de ministro, ¿o deputado continua deputado, não perdendo seu mandato, ficando sujeito às restrições e impedimentos decorrentes de seu status¿.
Mas o pilar do relatório de Delgado baseia-se no comando férreo que Dirceu exerceu historicamente no PT, o que impediria que um esquema de corrupção como o denunciado pelo ex-deputado Roberto Jefferson lhe passasse-lhe despercebido. O relator também apontou as relações suspeitas entre Dirceu e Marcos Valério, que teria exercido o ¿papel de facilitador¿ nas relações entre a Casa Civil e o BMG, um dos bancos no qual foi firmado o suposto empréstimo ao PT. E cita a reunião de representantes do BMG com Dirceu, na Casa Civil, com a presença do tesoureiro do PT, Delúbio Soares.
¿ Três dias antes, esse mesmo tesoureiro conseguira o empréstimo, em nome do PT, junto ao mesmo banco e, quatro dias depois, a empresa do sr. Marcos Valério levantaria novo empréstimo, também do interesse do PT ¿ reforçou o relator. Delgado também cita a intermediação de Valério no episódio da venda do apartamento da ex-mulher de Dirceu, Ângela Saragoça e o posterior convite para que ela trabalhasse no BMG, bem como a concessão de um empréstimo para refinanciamento do imóvel.
O parlamentar cruzou os dados de votações e ligações de Marcos Valério ao PT, à Câmara e ao Banco Rural, outro financiador do partido de Dirceu. Isso aconteceu pelo menos uma vez no caso da votação da MP dos Transgênicos. Entre os dias 12 e 14 de maio de 2003, quando a MP foi aprovada, Valério ligou duas vezes para o então presidente da Casa, João Paulo Cunha (PT-SP), sete para o diretório nacional do PT e uma para o Rural.
O relatório prossegue mostrando que o BMG emprestou ao PT R$ 2,4 milhões em 17 de fevereiro de 2003 e R$ 40,4 milhões às empresas de Valério entre 2003 e 2004, que também seriam repassados ao partido. Essa ¿mãozinha¿ dos bancos Rural e BMG ao governo e ao PT teriam sido, na visão de Delgado, regiamente recompensados: o primeiro, viu o incremento dos fundos de pensão em sua carteira de investimentos, enquanto o segundo foi o primeiro banco particular a trabalhar com o crédito consignado.
Sobre o episódio Roberto Marques, Delgado aponta uma série de ligações entre o assessor pessoal de Dirceu com Delúbio Soares. Prossegue lembrando a autorização feita pelo Rural para um saque de R$ 50 mil, que acabou sendo feito pelo motorista da corretora Bônus-Banval, ¿acusada de lavar o dinheiro do Valerioduto¿.
Delgado afirma existir um esquema de corrupção no Congresso, que irrigou o aumento de bancada de partidos como o PTB, PL e PP para que estes apoiassem o governo Lula.