Correio Braziliense, n. 21770, 24/10/2022. Política, p. 3
Petebista vai de aliado a bandido
Ingrid Soares
O ex-deputado Roberto Jefferson passou, em questão de horas, de aliado de Jair Bolsonaro (PL) a um “bandido” que atirou e atacou quatro agentes da Polícia Federal — ferindo dois deles — por cumprirem uma ordem de prisão. Depois que o petebista se rendeu e foi levado para a sede da PF, no Rio de Janeiro, o presidente da República, em vídeo nas redes sociais, classificou o ex-apoiador de criminoso.
“Como determinei ao ministro da Justiça, Anderson Torres, Roberto Jefferson acaba de ser preso. O tratamento dispensado a quem atira em policial é o de bandido. Presto minha solidariedade aos policiais feridos no episódio”, disse Bolsonaro.
A posição do presidente, porém, foi diferente daquela de horas antes quando, apesar de criticar Jefferson pelas ofensas contra a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), também atacou a “existência de inquéritos sem nenhum respaldo na Constituição e sem a atuação do MP (Ministério Público)”. Bolsonaro também desafiou a mostrarem alguma foto ao lado do petebista, mas foi desmentido com uma imagem de ambos trocando cumprimentos que circulou na imprensa e nas redes sociais.
Pouco antes da sabatina a que se submeteu, à noite, na Rede Record (leia na página 5), o presidente voltou a negar que exista “qualquer relação” dele com o ex-parlamentar. “Aqueles que insistem em dizer que o R.J. é meu aliado, lembrem que em setembro agora ele entrou com uma notícia-crime contra mim no STM (Superior Tribunal Militar). Não existe qualquer relação minha, quem age dessa maneira está mentindo”, afirmou.
Repúdio
O desacato de Jefferson a uma ordem judicial e o desfecho com a prisão do ex-deputado levou algumas das principais autoridades da República a se posicionarem.
Sem citar o nome de Jefferson, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou repudiar “toda reação violenta que ponha as instituições e seus integrantes em risco”. “O Brasil assiste estarrecido fatos que, neste domingo, atingiram o pico do absurdo. Em nome da Câmara, repudio toda reação violenta, armada ou com palavras, que ponham em risco as instituições e seus integrantes. Não admitiremos retrocessos ou atentados contra nossa democracia”, tuitou.
O Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), repudiou os ataques à ministra Cármen Lúcia e aos policiais, ressaltando que “o Estado democrático de Direito confere liberdades ao cidadão, jamais o direito de praticar crimes e violar direito alheio”.
Já o ministro Alexandre de Moraes, que determinou a prisão de Jefferson, parabenizou o trabalho da PF e destacou ser “inadmíssivel” a agressão aos agentes. “Parabéns pelo competente e profissional trabalho da Polícia Federal, orgulho de todos nós brasileiros e brasileiras. Inadmissível qualquer agressão contra os policiais. Me solidarizo com a agente Karina Oliveira e com o delegado Marcelo Vilella que foram, covardemente, feridos.”
A Associação Nacional dos Delegados da PF repudiou o ataque de Jefferson e disse ser “totalmente inaceitável qualquer tipo de violência contra policiais federais, em especial no cumprimento do dever legal estabelecido pela Constituição”. Já a Federação Nacional dos Policiais Federais destacou a gravidade do atentado.
“A reação violenta contra policiais é um atentado contra o próprio Estado e uma ofensa incomensurável à ordem jurídica. A inconformidade em face de decisões judiciais deve ser demonstrada no terreno adequado, que são os próprios autos, nos termos da Constituição Federal de 1988, e nunca, através do exercício arbitrário”, observou.
Sociedade violenta
Quem também repudiou a desobediência de Jefferson foi o presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva (PT), destacando que “criaram na sociedade uma parcela violenta, uma máquina de destruição de valores democráticos. Isso gera o comportamento como o que vimos hoje”.
A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) classificou o ex-deputado como “terrorista”. “Resistir à prisão e trocar tiros com a polícia; conclamar o povo para pegar em armas; tudo, horas depois das graves agressões à mininistra Carmem Lúcia! Jefferson representa perigo para a sociedade, realmente se comporta como um criminoso, um terrorista”.
O também senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que Bolsonaro “tenta se desassociar do aliado que tentou matar policiais e que sempre esteve ao seu lado no governo. Ele estimula a violência e o ódio diariamente e agora quer tirar o corpo fora”.
A presidente do PT e deputada federal Gleisi Hoffmann (PR) destacou que Bolsonaro disseminou violência e que “o Brasil precisa de paz e a vida do povo tem de ser a centralidade do nosso debate”.
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