Título: A violência que assola o país
Autor: Frei Betto*
Fonte: Jornal do Brasil, 19/10/2005, Outras Opiniões, p. A11
A violência é intrínseca à história do Brasil, se lembrarmos a dizimação dos povos indígenas no período colonial. Calcula-se que de uma população de 5 milhões restam apenas pouco mais de 700 mil, divididos em 215 etnias e falando cerca de 180 idiomas. A esquerda e a direita nunca prestaram muita atenção neles. Talvez por não renderem dividendos eleitorais.
A página dos negros trazidos como escravos para o Brasil também mancha a nossa história. Nosso país carrega o triste troféu do mais longo período de escravatura nas três Américas: 358 anos. À abolição seguiu-se a interdição de acesso à terra. Ainda hoje os afrodescendentes são duplamente marginalizados: por serem negros e pobres.
Podemos acrescentar à espiral de violência a opressão estrutural que, ainda hoje, condena à exclusão 53 milhões de brasileiros que não dispõem de R$ 80 mensais para adquirir a cesta básica. Ocorrem no Brasil cerca de 40 mil assassinatos por ano. É mais do que a guerra do Vietnã e do Oriente Médio, os conflitos da Bósnia e da Irlanda, e o ataque dos EUA ao Afeganistão e ao Iraque.
Todos sabemos que criminalidade e pobreza não são irmãs siamesas. Há países pobres, como a Índia, em que os índices de criminalidade são proporcionalmente inferiores aos nossos. Sem dúvida, o descaso público para com os investimentos sociais favorece o incremento da violência. Jovens sem acesso à escola e ao trabalho formal correm o risco de ficar reféns das drogas e do crime. Está provado que, quanto maior a presença do poder público na periferia, por meio de escolas, áreas de lazer e esporte, postos de saúde etc., menor o índice de criminalidade.
O Direito italiano descobriu, há 200 anos, que o aumento da criminalidade está associado à impunidade. É a certeza de punição que inibe o criminoso em potencial. E punição é o que falta no Brasil, sobretudo para a corrupção e a malversação dos recursos públicos. É verdade que o governo Lula, graças ao senso de justiça do ministro Márcio Thomaz Bastos, tem agido com firmeza no combate aos crimes de colarinho branco e à sonegação. Malgrado a cultura da violência que recheia os programas televisivos de entretenimento, exaltando ''heróis'' que agem ao arrepio da lei, fazendo ''justiça'' com as próprias mãos.
O Brasil necessita de reformas estruturais, como a agrária, que ampliem as ofertas de trabalho, e exige também profundas mudanças na polícia e no sistema prisional. Sem polícia unificada e qualificada, com bons salários e equipamentos, inútil querer combater o crime. Não existe crime organizado, existe é polícia desorganizada e desqualificada. Nosso sistema prisional precisa ser redirecionado para recuperar o preso, e não apenas puni-lo. Caso contrário, o índice de reincidências continuará crescendo. Do mesmo modo, sem proibição do comércio legal de armas, impossível querer uma sociedade menos violenta. De cada 100 jovens mortos com a idade de 15 a 24 anos, 57 são assassinados. A maioria por arma de fogo. Entre 1980 e 2000, foram assassinadas no Brasil 600 mil pessoas - um número superior às vítimas da guerra civil de Angola, que durou 27 anos.
No domingo, votarei SIM, a favor da proibição da venda de armas e munições. Nunca tive arma e não conheço ninguém que, possuindo uma, reagiu armado a assalto que sofreu. Mas sei de muitos que abasteceram, compulsoriamente, os arsenais de bandidos, que levaram de suas casas as armas estocadas para, em teoria, impedir um assalto. Possuir uma arma, com exceção de quem é profissional em segurança, explica-se mais pela psicologia. A pessoa crê-se poderosa. É como o soldado que se sente mais valorizado dentro da farda, o juiz com sua toga, o padre em sua batina. O acessório serve de invólucro a uma identidade fragilizada, de quem teme a própria nudez e procura se afirmar socialmente por aquilo que ostenta e não por aquilo que é. Caso típico de baixa auto-estima. Como o daquele morador de Niterói que exigia do porteiro do prédio tratá-lo de ''doutor''...
Quem votará no NÃO estará prestando um inestimável favor às poucas fábricas de armas do Brasil e à única de cartuchos. Ajudará a robustez do capital da indústria da morte. Pena que esses eleitores não tenham igual empenho no combate às causas da violência: a miséria, o desemprego, a falta de maior investimento na educação e o repúdio à cultura, sobretudo midiática, que faz apologia do crime.
Jesus veio para nos trazer a paz. Como filha da justiça, como ressaltam Isaías 37, 12 e Mateus 25, 31. Assim como hoje os grilhões da escravatura são peças de museu, sonho com o dia em que todas as armas estarão relegadas ao passado, inclusive a necessidade de existir polícia e Forças Armadas.
*Frei Betto é escritor, autor de ''Alfabetto - Autobiografia Escolar'' (Ática), entre outros livros.