Título: Morte de Arafat é 'questão de horas'
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Fonte: Jornal do Brasil, 10/11/2004, País, p. A8

Chanceler palestino diz que líder tem hemorragia cerebral e está em coma profundo. Respirador artificial continua ligado

O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Yasser Arafat, está em estado ''muito grave'' e sua morte é questão de horas, afirmou o ''número 2'' da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Mahmoud Abbas. Com o primeiro-ministro da ANP, Ahmed Qorei; o ministro de Relações Exteriores, Nabil Sha'at, e o presidente do Conselho Legislativo, Ruhi Fatuh, Abbas foi ao hospital militar de Percy, nas proximidades de Paris, onde o líder está internado há 12 dias.

Qorei foi o único que pôde ver Arafat. Ele entrou na Unidade de Tratamento Intensivo acompanhado apenas por uma guarda-costas do presidente. No entanto, todos os membros da delegação palestina receberam um relatório detalhado dos médicos que atendem Arafat no hospital.

Mais tarde, numa entrevista coletiva, Sha'at confirmou a informação dada por um alto funcionário da ANP em Ramala, de que o líder palestino apresenta hemorragia cerebral, desde a segunda-feira à noite.

- Ele não tem um tumor maligno, não é câncer. E não foi vítima de envenenamento. Não sou médico, mas acredito que a baixa contagem de plaquetas no sangue provocou a piora do quadro de saúde - acrescentou o chanceler palestino.

Os médicos militares franceses haviam anunciado pela manhã que o estado de saúde do paciente se agravou durante a noite e que o coma tinha se tornado ''mais profundo''. Mas não deram detalhes.

Foi a primeira vez que os médicos franceses se mostraram tão alarmistas sobre a condição de Arafat desde que ele deu entrada no hospital de Percy, vítima inicialmente de uma grave inflamação gástrica e intestinal, segundo os médicos. Desde a quarta-feira passada, o presidente palestino está em estado de coma.

Sha'at contou, no entanto, que o coração, os pulmões e o cérebro do líder ''continuam funcionando'' e que o respirador artificial ao qual ele está conectado permanece ligado.

- Arafat está vivo e não podemos antecipar sua morte. A religião muçulmana não aceita a eutanásia - afirmou o ministro, acrescentando que a possibilidade de desligar os aparelhos não foi discutida ''nem pela família, nem pelos médicos''. - Seu destino está nas mãos de Deus.

De manhã e à tarde, uma rádio israelense, fontes palestinas em Ramala e a rede de televisão Al Arabyia chegaram a divulgar que Arafat tinha morrido. Mas a notícia foi desmentida pelos médicos no hospital Percy e pela delegação de autoridades palestina que visitou o presidente da ANP.

De Paris - e depois de se reunir com o presidente francês, Jacques Chirac - Abbas, Qorei, Sha'at e Fatuh seguiram para a Jordânia, de onde voltam para Ramala, na Cisjordânia, onde fica a Muqata (quartel-general) de Arafat. É de lá que eles pretendem anunciar a prevista morte.

A visita dos palestinos a seu líder foi envolta em polêmica. A mulher de Arafat, Suha, proibiu que os médicos franceses divulgassem boletins sobre o estado de saúde de seu marido e recusou a visita da delegação, acusando a cúpula palestina de querer ''enterrar vivo'' Arafat, para abrir caminho na liderança da ANP. Mas ontem, as autoridades tiveram permissão para entrar no hospital.

À noite, os presidentes dos Estados Unidos, George Bush, e do Egito, Hosni Mubarak, conversaram por telefone. Bush reiterou ao egípcio sua ''disposição em trabalhar para a criação de um acordo que permita estabelecer um Estado palestino independente, que coexista em harmonia com Israel''. Mubarak, por sua vez, ressaltou a necessidade de que palestinos e israelenses cumpram o estipulado no plano de paz conhecido como ''Mapa de Caminho'' e de que as negociações de paz sejam retomadas o mais rápido possível.