Título: Dirceu apresenta defesa com ataques ao relator
Autor: Fernando Exman
Fonte: Jornal do Brasil, 22/10/2005, País, p. A4
À beira da cassação, deputado petista diz que relatório tem erros grosseiros
BRASÍLIA - O ex-ministro da Casa Civil e deputado federal José Dirceu (PT-SP) deu ontem mais uma demonstração que não desistirá facilmente de seu mandato. O parlamentar concedeu entrevista coletiva, na Câmara, para rebater o relatório apresentado na quinta-feira pelo deputado Júlio Delgado (PSB-MG) ao Conselho de Ética da Casa. Delgado pediu a cassação do mandato de Dirceu por quebra de decoro parlamentar por suposta participação nos esquemas de caixa 2 do PT e do mensalão. Antes de conceder a entrevista coletiva, Dirceu prestou depoimento à Polícia Federal. Segundo o deputado, perguntas e respostas desse depoimento foram praticamente as mesmas que as realizadas no Conselho de Ética. Ele negou que o caso do assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel tenha sido abordado.
- Vou demonstrar a falácia que é a acusação - disse Dirceu no início da entrevista em que apresentou contra-prova intitulada ''Prejulgamento, Parcialidade e Manipulação: Como abrir caminhos para uma condenação pré-anunciada''.
O ex-ministro afirmou que as provas colhidas pelas CPIs dos Correios e do Mensalão, Polícia Federal e Ministério Público provam que ele não participou do caixa 2 do PT e tampouco sabia dos empréstimos tomados de Marcos Valério, o acusado de ser o operador do mensalão.
- Suposições viraram evidências.
Dirceu afirmou que Delgado pegou trechos de depoimentos e os incluiu em seu relatório sem contextualizá-los.
O ex-ministro reafirmou que seu relacionamento com Valério era apenas institucional, pois ele só ia a seu gabinete acompanhando representantes de empresas e bancos que haviam agendado reuniões no Palácio do Planalto. E disse que depois de ter assumido a chefia da Casa Civil deixou de participar das decisões da direção do PT.
Ele sugeriu que há um movimento para cassá-lo, mesmo não havendo provas que sustentem o relatório que irá à votação no Conselho de Ética. Para ele, o que está em curso é um julgamento político que tem como objetivo prejudicá-lo em função de sua importância como ex-presidente do PT, ex-ministro de Lula e deputado.
- Não vou assumir aquilo que não fiz. A quem interessa me tirar da vida política, do Parlamento, da vida pública do País e me jogar quase na ilegalidade?
Dirceu evitou entrar em confronto com parte de seus companheiros de partido e também com o Palácio do Planalto. Disse que o governo está certo em tentar acabar o mais rápido possível com a crise política para colocar outra agenda na pauta política do País.
Mas, o ex-ministro disse que seria maldade acreditar que o presidente Lula quer a cassação de seu mandato para que a crise política se arrefeça.
Citando sua condição de acusado, Dirceu não comentou temas polêmicos. Questionado se era a favor de cassações de mandatos de parlamentares que utilizaram caixa 2 em suas campanhas, ele afirmou apenas que o ideal para o País era que essa prática fosse totalmente extinta. Não só excluída da política, mas também de todo o sistema econômico nacional. Defendeu também um justo julgamento, no sábado, do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.
- Tenho mantido o silêncio porque sou acusado. O que falo pode ser usado contra mim - afirmou o ex-ministro.
Demonstrando tranqüilidade, o deputado afirmou que não deixará de participar do cenário político do País como cidadão, mesmo sem mandato parlamentar:
- Isso é para depois. Estou lutando e tenho a convicção que a Câmara me fará justiça. A única coisa que eu quero é justiça.
No entanto, já antecipou que apoiará o presidente Lula em uma possível campanha à reeleição.
Dirceu afirmou que utilizará todos os meios para se defender. Ele acha que tem apoio suficiente no PT e também de parlamentares de outros partidos para isso e nega que exista uma conspiração para atrapalhar os trabalhos do Conselho de Ética da Câmara.