Valor Econômico, v. 20, n. 4963, 19/03/2020. Finanças, p. C1

BC reduz Selic a 3,75% e dá sinal ambíguo sobre próximo passo

Estevão Taiar
Alex Ribeiro


O Comitê de Política Monetária (Copom) voltou a cortar a taxa básica de juros, de 4,25% para 3,75% ao ano, em meio à desaceleração da atividade econômica global causada pela pandemia do coronavírus. Mas deu sinais ambíguos sobre seus próximos passos, afirmando que considera adequada a taxa nesse patamar, mas ao mesmo tempo indicando que o cenário está muito confuso e que suas decisões futuras dependerão dos dados econômicos que forem divulgados até a sua próxima reunião, em maio.

O comunicado da decisão, que foi unânime, extrapolou os assuntos das reuniões do Copom, que envolvem juros e inflação, e avisou que o BC vai continuar a usar todo o seu arsenal de medidas de política monetária, cambial e estabilidade financeira no enfrentamento da atual crise.

“O Copom entende que a atual conjuntura prescreve cautela na condução da política monetária, e neste momento vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar”, disse, fazendo uma indicação para a próxima reunião.

A projeção de inflação no cenário básico aponta uma variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,6% no ano que vem, que é o alvo principal da política monetária, pouco abaixo da meta, de 3,75%. Por essa projeção, não há muito espaço para muitas quedas de juros - o que ajuda a entender a sinalização de manutenção da taxa Selic no patamar atual de 3,75% ao ano para maio. Essa projeção leva em conta uma t de câmbio de R$ 4,75, bem abaixo dos valores atuais ao redor de R$ 5,20 que a cotação do dólar alcançou no pregão de ontem.

Mas o colegiado chama a atenção para como o cenário que sustenta essa projeção de inflação é incerto. “No entanto, [o Copom] reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos”, diz o documento. Essa variância no balanço de riscos significa que há muitas incertezas no horizonte que podem fazer a inflação ficar acima ou abaixo do projetado, modificando o cenário de manutenção dos juros.

O balanço de riscos, diz o comunicado, segue com fatores “em ambas as direções”. “Por um lado, o nível de ociosidade [da economia] pode produzir trajetória de inflação abaixo do esperado”, disse. E faz um alerta que o risco se intensifica caso um agravamento da pandemia aumente a incerteza e reduza a demanda de maneira mais intensa ou por um período mais longo do que o esperado.

Mas não há risco apenas do lado positivo. No lado negativo, o Copom voltou a citar o aumento da potência da política monetária, a deterioração do cenário externo, mas sobretudo aumentou muito o tom de preocupação com o andamento das reformas no Congresso e com a direção da política fiscal.

“Questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas têm o potencial de elevar a taxa de juros estrutural da economia. Nessa situação, relaxamentos monetários adicionais podem tornar-se contraproducentes se resultarem em aperto nas condições financeiras”, disse.

O comunicado também revela que o cenário para a atividade econômica ficou mais turvo. Segundo o Copom, os dados divulgados desde fevereiro mostravam uma recuperação gradual da atividade econômica. “Entretanto, esses dados ainda não refletem os impactos da pandemia”, disse o colegiado.

O Copom reviu, ainda, sua avaliação sobre o núcleo de inflação. Em fevereiro, dizia que estavam confortáveis, o que na linguagem usual do colegiado significa que oscilam entre o centro e o piso da meta de inflação. Agora, são descritos como “em níveis compatíveis com o cumprimento da meta”, ou seja, estariam mais próximos do centro da meta de inflação. O Copom voltará a se reunir nos dias 5 e 6 de maio.