Título: Retorno para o trabalhador e o patrão
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 23/10/2005, Economia & NEGÓCIOS, p. A19

Empresários alegam que alternativa motiva o quadro de funcionários e evita gastos com treinamento de nova mão-de-obra

Com 70 funcionários na linha de produção, a Karícia - que vende cortinas e produtos de cama, mesa e banho há 32 anos - começa a trabalhar com adicional de horas extras na próxima semana. Para André Mota, diretor operacional da empresa, o objetivo é não comprometer o fluxo normal deste semestre com a demanda específica de Natal, quando o número de clientes passa de 600 para 1,2 mil. Na fábrica, no Caxambi, Zona Norte do Rio, os funcionários terão uma hora a mais de trabalho e turno adicional de oito horas no sábado até a primeira quinzena de novembro.

- Eu mantenho meu quadro. A hora extra é mais rentável para a empresa do que contratar novos funcionários. Mas, na segunda quinzena de novembro, de acordo com a demanda, haverá abertura de novas vagas, chegando a 30% além do atual quadro - explica Mota, que espera alta de 20% nas vendas este ano em relação ao Natal de 2004.

Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), acredita que a tendência é o crescimento maior das horas extras, em relação ao número de novas vagas, até o fim deste ano.

- A alta das horas trabalhadas é mais vigorosa neste momento. Tanto que o aumento dos dois índices não acontece na mesma intensidade, até porque há a questão da segurança. E isso será mais visível em setores vinculados ao salário, como alimentação e vestuário - afirma Lúcio.

Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), faz coro às explicações de Lúcio e lembra ainda setores como o de eletroeletrônicos e de celulares.

- As empresas, além de aumentarem as horas extras de seu quadro de funcionários, estão recorrendo a algum malabarismo como deslocamento de funcionários para outros turnos - ressalta Almeida.

O Boticário, uma das maiores empresas do setor de cosméticos do país, criou, em julho, um terceiro turno com o deslocamento de parte dos 400 funcionários na fábrica de São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Assim, a empresa passa a funcionar 24 horas por dia.

- Além disso, vamos ainda contratar cerca de 100 temporários em todo esse segundo semestre. Esperamos alta de 20% nas vendas do Natal este ano em relação ao ano passado. O contratado temporário precisa de algumas semanas de treinamento e, às vezes, o tempo é curto para isso - explica Arthur Teixeira, gerente industrial do Boticário.

Roni Argalji, diretor-presidente da Duloren, concorda. Para ele, é preciso tanto horas extras como novos funcionários. Este ano serão contratados temporariamente cerca de 100 pessoas para atender a demanda de final de ano.

- Os funcionários temporários não possuem experiência. E o treinamento leva tempo. Por isso, mesclamos as novas vagas com as cerca de duas mil pessoas que trabalham diariamente em nossas fábricas. Entre os empregados, todos terão duas horas a mais de trabalho por dia para atender a demanda no Natal. A produção mensal de 1 milhão de peças aumenta cerca de 15% entre agosto e dezembro - ressalta Argalji.

A empresa de roupas de surfe Marmot, que conta com 60 funcionários, já começou a fazer horas extras desde a segunda quinzena de setembro. A expectativa é de que as vendas aumentem 30%, influenciadas pelo calor dos meses deste final de ano.

- A vantagem de se fazer hora extra é que você agrada mais ao funcionário, fazendo com que ele engorde mais o seu ganho mensal. Para a empresa é mais interessante que seus empregados façam hora extra, pois já conhecem o ritmo. Assim, não é preciso ficar ensinando. Ou seja, não há perda de tempo, ganha-se muito mais na produção - explica Antony Halim, presidente da Marmot. (B.R.)