O Globo, n. 32532, 01/09/2022. Política, p. 8

“Imagina explicar isso na favela'', afirma Ciro sobre plano econômico

Lucas Mathias


O candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, disse ter feito um “comício para gente preparada” ao explicar seu plano econômico a uma plateia de empresários, colocando em dúvida se seria igualmente compreendido caso tivesse feito palestra semelhante em uma favela.

O pedetista participou de um encontro na sede da Firjan, no Centro do Rio, na tarde de ontem. Ao final, o empresário Luiz Césio Caetano, que já presidiu a federação, classificou a explicação do presidenciável como uma aula.

— Candidato Ciro Gomes, parabéns pela sua aula. Isso foi uma aula, pelo menos para mim.

Ciro o interrompeu neste momento:

— Na verdade, é um comício, né? Um comício para gente preparada, você imagina eu explicar isso na favela, né.

Mais cedo, em agenda de campanha no Saara, polo de comércio de rua, o candidato do PDT havia acenado para o eleitorado mais pobre, que considera estratégico para levá-lo ao segundo turno. Entre os eleitores com renda familiar até um salário mínimo, Ciro marca 6% das intenções de voto, segundo o Ipec. O candidato já prometeu um programa de renda mínima mensal de R$ 1 mil e, na semana passada, defendeu a “Lei Antiganância”, em que os brasileiros endividados no cheque especial ou no cartão de crédito pagariam no máximo duas vezes o valor nominal da dívida para se verem livres dela.

— Quero os votos de todos os brasileiros que estão desempregados; tenho uma proposta de fazer cinco milhões de empregos aparecerem consistentemente nos dois primeiros anos. Sou o candidato de todos os humilhados do Brasil — afirmou no Saara.

Depois, com os empresários, ele se posicionou a favor da elaboração de um novo Código Nacional do Trabalho. Ele defendeu ainda a recriação do Ministério da Indústria e Comércio e criticou a política de preços da Petrobras baseada na cotação internacional do barril de petróleo:

— Pretendo criar uma comissão tripartite entre governo, empresários e trabalhadores, para criarmos um novo, moderno e audacioso Código Nacional do Trabalho. Abas e é o conjunto de práticas internacionais, transformada sem resoluções da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Nas redes, Ciro disse que afirmar que houve desprezo aos moradores de favelas é “má fé”. Ele ponderou que tratou na palestra de temas “extremamente técnicos”, o que faz com que sejam compreendidos por uma pequena parcela da população. Segundo ele, o que houve foi uma autocrítica por usar uma linguagem técnica. O pedetista acrescentou que usou o termo “gente preparada” de for na técnica, não como “menosprezo à sabedoria popular”.

Ao longo da corrida eleitoral, a campanha de Ciro já passou por outras controvérsias. Na semana passada, ele publicou um vídeo que compara a polarização política do país a uma barragem prestes a se romper, apontando o pedetista como o único capaz de “arrombar” a tal represa. A analogia repercutiu mal, e internautas afirmaram que a peça lembrava as tragédias de Brumadinho e Mariana, em Minas.

Na última segunda-feira, um dia após o debate presidencial promovido pela Band, foi a vez de Ciro publicar um postem que afirmava que Lula estava “fraco” para enfrentar Bolsonaro: “Será que não entendem que Lula está cada dia mais fraco — fisicamente, psicologicamente e teoricamente — para enfrentar a direita sanguinária?”, escreveu. O post, criticado pelo PT, foi apagado no mesmo dia.