Título: STF recebe o 'Esquema Opportunity'
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 25/10/2005, País, p. A7

A CPI dos Correios vai enviar ao Supremo Tribunal Federal (STF) um diagrama com o ''Esquema Opportunity'', onde estão todas as relações do grupo do banqueiro Daniel Dantas com Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser operador do mensalão. O diagrama faz parte de um conjunto de informações que a CPI passará à ministra Ellen Gracie, relatora do mandado de segurança sobre a entrega ao Congresso do disco rígido central (HD) do Opportunity.

O esquema desenhado pela CPI mostra as operações de Dantas no Brasil e no exterior. As pessoas físicas e jurídicas, de acordo com o documento, entregavam dinheiro não declarado a doleiros, que convertiam tudo em dólar paralelo. Em seguida, os doleiros entregavam o dinheiro para o Opportunity nas Ilhas Cayman. Pelo diagrama, Dantas enviava o dinheiro de volta ao Brasil.

Quando o dinheiro desembarcava no país, era investido na compra de empresas, entre elas as operadoras de telefonia Telemig, Amazônia Celular e Brasil Telecom. Nesta etapa, o dinheiro era ''esquentado'', ou seja, voltava pelo câmbio oficial do Banco Central. Em seguida, as empresas controladas pelo Opportunity pagavam às empresas de Valério em reais. Segundo o diagrama, o dono de agências de publicidade recebeu o dinheiro das empresas de Dantas, ''sendo parte para pagamento de parlamentares'', o chamado mensalão.

O HD do Opportunity foi apreendido pela Polícia Federal no ano passado durante a Operação Chacal, que desbaratou a quadrilha internacional de espionagem da Kroll Associates, um órgão de inteligência financiado por Daniel Dantas. A CPI aprovou requerimento solicitando o HD, mas Dantas impetrou recurso no STF.

O diagrama montado pela CPI é feito com base em decisões judiciais, investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, além de documentos levantados pela CPI. O documento reproduz trechos do inquérito administrativo da Comissão de Valores Mobiliários, com a condenação do Opportunity Asset Management, Gestor do Opportunity Fund. O fundo foi condenado a pagar multa pecuniária por operações no mercado financeiro.

A CPI faz menção sobre as movimentações financeiras por intermédio do MTB Bank. A CPI quer comparar as movimentações do Opportunity no MTB Bank com as informações disponíveis no HD, ''crucial para o andamento das investigação'', que revelaria o fluxo de capitais desde as operações dos doleiros no Brasil, passando por Nova York, Ilhas Cayman, chegando nas empresas de Marcos Valério, que repassava aos políticos.

Os parlamentares listaram vários indícios sobre o envolvimento de Dantas com o mensalão. Um levantamento atualizado mostra que as empresas ligadas ao Grupo Opportunity injetaram R$ 152,4 milhões nas empresas de Marcos Valério. Várias notas fiscais foram roubadas na CPI e ainda não foi possível comprovar com exatidão a natureza dos serviços prestados por Marcos Valério.

A CPI vai lembrar à ministra Ellen que Marcos Valério admitiu ter intermediado encontro entre Rodenburg - cunhado e braço-direito de Dantas - e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Em seu depoimento, lembra a CPI, Delúbio confirmou ter conhecido Dantas e que havia participado de reunião com Rodenburg, intermediação que foi fruto dos esforços de Valério.

No relatório de informações, a CPI faz referência à ''Conexão Lisboa'', em que Valério, junto com o tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri, viajam a Portugal para intermediar a venda da Telemig Celular para a Portugal Telecom. O conjunto de documentos da CPI ao STF inclui ainda as ''intensas e constantes'' ligações telefônicas entre os personagens envolvidos com o mensalão e as empresas de Dantas. Há ligações entre Valério e o Consórcio Voa, administrado pelo Opportunity.

Para a CPI, é de ''vital importância'' que se esclareça se os pagamentos das empresas do Grupo Opportunity para Marcos Valério - ''com notas sumidas'' - foram na verdade para alimentar o chamado ''Valerioduto''.