Título: Delúbio, quem diria?
Autor: Jarbas Passarinho
Fonte: Jornal do Brasil, 25/10/2005, Outras Opiniões, p. A9
Nos últimos dias da semana passada, o professor Delúbio Soares fez declarações polêmicas, uma delas diria eu retumbante. A primeira, no dia de seus 50 anos bem vividos, a reportagem repisa a frase que mereceu manchete da mídia. Disse ele que toda essa crise política - que ameaça avolumar-se na direção de crise institucional - ligada ao caixa 2, o tempo se encarregará de fazê-la esquecida e transformar-se em ''piada de salão''. Falta-me experiência, de salão ou de piada, para entender a metáfora, o que não contrasta com a verdade do efeito do tempo sobre as palavras e conceitos, especialmente no plano político. Um exemplo, não remoto, é ilustrativo. Um ardoroso militante do PT guardara como um troféu a gravação de um discurso proferido, cuido que em 1989, em comício, em Sergipe, por Lula, quando era o pivô mais ardoroso da oposição. Dominado pela paixão, referindo-se a um ladrão menor, disse que ''era pinto, comparado com o presidente José Sarney''.
A fita, tomou-a o petista entusiasmado, como prova de grande coragem de seu líder, que não temia acusar o próprio presidente da República, em nome da necessidade de mudar o país para melhor. No início da presente legislatura, já deputado eleito pelo PT, o jovem parlamentar divergindo das alianças que Lula fizera e mantinha com o senador Sarney, retirou do seu arquivo a fita e dela deu conhecimento público. O tempo se encarregara de fazê-la ignorada e a lembrança custou ao deputado a expulsão de seu partido. Se o deputado fosse íntimo da mitologia grega diria que Lula bebera água do rio Letes, que faz perder a memória
O professor Delúbio não disse nada de novo, ao referir-se ao próximo esquecimento da crise que já dura cinco meses. A notícia era ilustrada com uma foto do ex-tesoureiro, com o mesmo sorriso de troça que usara no depoimento ao parlamentares da CPI dos Correios, o que não o poupou de ser o boi de piranha, expulso do PT com os votos dos que se beneficiaram dos ''recursos não contabilizados'' mas beberam do rio que faz esquecer.
Mais recente, antes da expulsão, provoca-nos reflexão séria o que disse a respeito do caixa 2. Sempre houve no PT, teria dito, o uso dela. O senador Mercadante, que nos merece respeito, rebelou-se, pois diz nunca ter usado nas suas campanhas ''valores não contabilizados''. Temerário, acrescentou que no PT nunca ouvira falar de caixa 2. Delúbio retrucou, irônico, ''se as despesas de campanha não foram pagas por caixa 2, então o foram por Papai Noel''.
Paulo Rocha, que renunciou, acaba igualmente de confirmar a existência do caixa 2 no PT. O fato de o senador, líder do PT no Senado, não saber, não é de estranhar-se num governo em que isso é regra geral. Diz-se que a renúncia de Paulo Rocha é a confissão da culpa. Não ouso tanto, até porque acho que ele renunciou seguindo recomendação de voz mais poderosa na República, visando a ser uma atitude coletiva dos comprometidos com o generoso Valério, para assim pôr fim à crise política.
Paraense de adoção desde os quatro anos de idade, no Pará fiz política e julgo conhecer as pessoas, não tanto como o presidente Médici que ''conhecia o avesso dos homens''. Apostaria eu que o farto recurso recebido por Paulo Rocha, diretamente ou pela assessora xará da filha de Prestes, ele não o reembolsou. Sei que é pobre e não manchado pelo surrupiar do erário. Mas uma ilação fala a favor da possibilidade de o dinheiro não ter sido destinado só a pagar dívidas do PT paraense. O deputado quase certamente tinha outro endereço para os ''recursos não contabilizados''. Não teriam esse objetivo esdrúxulo, o de pagar para votar com o governo o líder do mesmo governo. Talvez, mais provável, seria de manter não-petistas a fazê-lo. O governo - diz a mídia que por orientação do ministro da Justiça, um advogado penalista brilhante - tudo fez para negar a evidência do mensalão, uma contribuição devida aos cooptados, não necessariamente paga mês a mês, mas seguramente periódica, e capaz de assegurar aprovação para as emendas constitucionais ou simples projetos de lei de iniciativa do governo.
Impossível ter a prova material do recibo dos venais, mas a contabilidade bancária é irretorquível, como provam os extratos bancários que acabam de revelar os pagamentos regulares para o Partido Liberal presidido pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto. Os técnicos que assessoram as CPIs dos Correios e do mensalão compararam os extratos bancários referentes a transferências regulares, constantes de cheques, depósitos e transferências eletrônicas, ao longo de cinco meses, do estranho tesouro de Marcos Valério para o PL, entre fevereiro e agosto de 2002. É tão clara a prova que o eminente senador Amir Lando exclamou: ''Está aí o caminho das pedras''. A existência desse caminho não fará apenas andar, seguro, sobre as águas do mar. Acabará levando a nomes até aqui protegidos pelo silêncio de um ''governo que não rouba nem deixa roubar''. E provará, ainda, que o nobre senador por Rondônia é de uma formação moral que faz inveja à Assembléia Legislativa do seu estado.