Valor Econômico, v.20, n. 4863, 22/10/2019. Política p.A8
Marcelo Ribeiro
Fabio Muakawa
Matheus Schuch
As duas alas do PSL retomaram ontem a disputa pela liderança do partido na Câmara dos Deputados. O grupo alinhado ao presidente Jair Bolsonaro insistiu na indicação de seu filho Eduardo (SP) para o posto, enquanto os parlamentares próximos ao presidente nacional da legenda, Luciano Bivar (PE), reiteraram o apoio a Delegado Waldir (GO). Após três listas protocoladas na Secretaria-Geral da Mesa da Câmara, Eduardo Bolsonaro encerrou o dia como o líder da sigla na Casa. Em seu primeiro ato como líder do partido na Casa, o filho do presidente destituiu os doze vice-líderes da sigla na Casa. A maioria era ligada a Bivar.
Como dano colateral da disputa, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, passou a ser criticado pelos aliados de Bivar. Na versão dos bivaristas, houve o rompimento de um acordo, pelo qual o delegado Waldir se afastaria da liderança em troca da desistência da legenda em suspender cinco parlamentares de suas atividades partidárias e da escolha de um nome de consenso para comandar a bancada. O deputado Júnior Bozzella (PSL-SP) afirmou que o acordo teria sido costurado entre Bivar e o ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República, Luiz Eduardo Ramos. A conversa entre Bivar e Ramos aconteceu na manhã de ontem.
“Isso demonstra a desorganização do Palácio do Planalto, o que a gente tem assistido nos últimos meses na questão que envolve a articulação política. De certa forma, eles colocaram em risco a credibilidade do general Ramos, que é uma pessoa séria. Não dá para combinar uma coisa sentado e fazer outra de pé”, disse Bozzella ao Valor.
O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), por sua vez, negou que qualquer acordo tenha sido selado entre Bivar e Ramos. De acordo com ele, ambos tiveram apenas conversas preliminares sobre um eventual compromisso. O deputado Eduardo Bolsonaro também afirmou desconhecer que qualquer acordo tenha sido fechado. “Me falaram que não existiu acordo nem essa conversa. É muita informação desencontrada. É uma sucessão de listas sendo protocoladas. Tem que esperar para ver”, disse ele, após reunir-se com parlamentares bolsonaristas no gabinete do líder do governo na Câmara.
Ao Valor, o próprio Ramos negou que ele e Bivar tenham batido o martelo sobre a viabilização de uma terceira via para a liderança do PSL na Câmara. “Não houve em nenhum momento 'vamos fazer um acordo' ou algo do tipo. Não foi empenhada palavra nenhuma nesse sentido”, disse Ramos. “Ele [Bivar] me perguntou sobre um terceiro nome. Isso eu expliquei para todos que é uma construção que tem que ser feita no partido.”
Ramos, disse ao Valor que se sente "como João Batista pregando no deserto", em meio ao desgaste que sofreu por, segundo ele, tentar contribuir para diminuir a tensão entre a ala do PSL leal ao presidente Jair Bolsonaro e os aliados do deputado federal Luciano Bivar (PE), que preside a legenda. Ele afirmou que não pretende mais atuar no caso.
Diante da suposta traição, bivaristas protocolaram uma lista com o objetivo de garantir que a liderança ficasse nas mãos de Delegado Waldir. O documento contava com respaldo de 28 parlamentares. Pouco depois, bolsonaristas se mobilizaram novamente e entregaram a sua segunda lista do dia, mantendo a indicação do filho do presidente para o cargo, com apoio de 29 deputados. A SGM ainda checa as assinaturas dessas duas listas e precisa despachar com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), antes de oficializar um desfecho.
Os deputados Daniel Freitas (PSL-SC) e Leo Motta (PSL-MG), que estavam alinhados com Delegado Waldir na semana passada e passaram a apoiar Eduardo nesta semana, protocolaram um requerimento para que assinaturas suas em eventuais novas listas pró-Waldir não sejam validadas pela Secretaria-Geral da Mesa da Câmara.
Questionado se abriria mão da liderança do partido para encerrar a crise no PSL, Eduardo disse que isso é “assunto para tratarmos de maneira interna e não publicamente”.
Mesmo após o recuo da suspensão imediata de cinco parlamentares, o PSL notificou deputados para que apresentassem suas defesas, tentando evitar a suspensão de suas atividades partidárias. Os membros do diretório do partido se reúnem hoje para eleger e empossar os membros do Conselho de Ética, Disciplina e Fidelidade Partidária da legenda. Esse conselho seria responsável por analisar eventuais pedidos de punição ou de expulsão de parlamentares da sigla. Já os deputados ameaçados acionaram no STF para evitar que suas atividades parlamentares sejam suspensas.
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Assis Moreira
O presidente da República, Jair Bolsonaro, queixou-se do “linguajar” usado na briga interna do PSL, que se estende há duas semanas com trocas públicas de ofensas entre o grupo favorável e contrário a Bolsonaro. Ele mesmo foi chamado de “vagabundo” pelo então líder do partido na Câmara, Delegado Waldir (GO).
“Passei 28 anos ali [no Congresso] sem um cargo. Problemas eu tive lá dentro, mas sem chegar ao nível que um parlamentar chegou agora, com linguajar que nunca vi em lugar nenhum do mundo”, disse Bolsonaro a jornalistas em Tóquio, no Japão, onde cumpre a primeira etapa de uma viagem de dez dias pela Ásia e Oriente Médio.
O presidente negou que a disputa por poder dentro do PSL configure uma crise política. Para Bolsonaro, trata-se de um “bate-boca exacerbado”. Bolsonaro atribuiu o conflito dentro do partido a novatos que, segundo ele, chegam à política “achando que sabem tudo”.
Questionado se há um desfecho à vista para a briga no PSL, respondeu: “As coisas acontecem. É igual a uma ferida, cicatriza naturalmente.” Afirmou ainda que “o bem vai vencer o mal”.
Por garantia, ao visitar o santuário xintoísta Meiji, um dos mais populares do Japão, o presidente pediu para passar por um ritual de purificação.
A prática é conhecida como Temizu ou Chozu e feita antes de chegar ao santuário principal. Quando um assessor explicou que os visitantes se purificavam lavando as mãos e a boca com a ajuda de conchas, Bolsonaro ouviu que se tratava de uma purificação “contra o mal”. “Estou precisando, estou precisando”, repetiu o presidente, enquanto começava a fazer o ritual.
Pouco antes, ao passar por uma parede com barris de vinhos de um lado e de sakê de outro, Bolsonaro comentou que faltava vender a cachaça brasileira. “Se o Lula não conseguiu...”, ironizou.
O presidente saiu do santuário e tomou a direção de uma rua comercial famosa em Tóquio. Alguns brasileiros o identificaram e tiraram fotos com ele. Bolsonaro também parou para posar com japoneses que pediam uma foto.
Pouco antes, o presidente comentou com jornalistas sua visão sobre a Floresta Amazônica: “A Amazônia interessa ao mundo todo, está aberta. Tem que ser explorada, é nossa a Amazônia.”