Título: Além do complexo: O fim de um complexo
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 25/10/2005, Internacional, p. A12

Néstor Kirchner abandonou para sempre o ¿complexo de legitimidade¿ que tinha desde 2003, quando Carlos Menem largou a luta pela presidência, ao renunciar à candidatura em pleno segundo turno. Kirchner foi eleito com 22% dos votos e, desde então, buscou mostrar que tem mais poder do que indicava a anêmica porcentagem. Com as eleições de domingo, Kirchner pode dizer que se curou do complexo: sua mulher, Cristina de Kirchner, deu um verdadeiro drible na esposa de outro ex-presidente, Eduardo Duhalde, no distrito mais importante da Argentina, a província de Buenos Aires. E, por uma combinação de alianças e coalizões, a corrente que lidera Kirchner terá, a partir de dezembro, o controle do Senado e cerca de 100 deputados, ou seja, será a primeira maioria nas Câmaras.

O rastro desse triunfo, seguramente, permitirá que ele continue construindo uma força de centro-esquerda, que vá paulatinamente abandonando o partido peronista. Mas este trânsito não será fácil, nem em linha reta. Temos que ver se Kirchner é capaz de mostrar uma cara mais amável a seus potenciais aliados, como o socialista Hermes Binner, que ganhou no domingo o quase inexpugnável bastião peronista de Santa Fé, e outros políticos de origem radical, como o governador de Mendoza, Julio Cobos. Todos eles podem integrar esta nova força.

Na cidade de Buenos Aires, a capital federal, a vitória de Mauricio Macri ¿ um empresário que utilizou a presidência do popular clube de futebol Boca Juniors como trampolim para a política ¿ abre uma esperança de liderança para a dizimada centro-direita argentina. Macri oferece um perfil mais de gerente do que de político, com um parco volume intelectual, e com uma proposta que evita ser conflitiva. Seus potenciais aliados, mesmo que o empresário não os quisesse, são os derrotados por Kirchner: Duhalde e Menem ¿ este último, pela primeira vez em sua história, foi derrotado na própria província, La Rioja.

A sorte de Kirchner para alcançar um novo mandato em 2007 depende da economia. Se continuar crescendo ¿ este ano estará em torno de 9% ¿ não haverá força política que detenha a reeleição.