Título: Além do Fato: Vitória indiscutível
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 25/10/2005, Internacional, p. A12
A jornada de eleições legislativas, ocorrida no domingo na Argentina, destaca o triunfo do presidente Néstor Kirchner. Sua aliança Frente para a Vitória conquistou cargos em 16 das 24 províncias, com aliados locais em cada caso. Quando os legisladores tomarem posse de seus assentos em 10 de dezembro, o apoio legislativo ao presidente será de maioria absoluta no Senado e de quase a metade da Câmara de Deputados, cuja maioria se conseguirá com alianças menores. Por outro lado, Kirchner necessitava de uma vitória indiscutível em nível eleitoral de sua popularidade, já que a legitimidade original de sua presidência era fraca: no segundo turno presidencial de 2003, seu rival (o ex-presidente) Carlos Menem não se apresentou. Deste modo, Kirchner foi alçado à Casa Rosada somente com os votos conseguidos no primeiro turno: pouco mais de 22% do eleitorado argentino. Esta debilidade institucional, somada à audácia em vários âmbitos de sua gestão e sua ambição em construir uma base de de apoio político próprio que ultrapassasse os limites do Partido Justicialista, criavam no presidente a necessidade de ratificação clara de sua atual liderança.
Em segundo lugar, o líder foi além de obter um forte respaldo a suas políticas. O dado político mais importante é o esmagador triunfo de sua esposa, Cristina Fernández de Kirchner, no maior distrito, o mais rico e povoado da Argentina: a província de Buenos Aires. É crucial porque a principal rival de Cristina era Hilda ¿Chiche¿ Duhalde, mulher do ex-presidente Eduardo Duhalde. Esta concorrência por três postos no Senado que a região tem direito era na realidade um enfrentamento entre Kirchner e Duhalde pela chefia do peronismo. Tão forte foi a disputa que os Kirchner entraram na briga mesmo sem a etiqueta do justicialismo tradicional, nos moldes populistas de Juan Perón. E apesar dos prognósticos iniciais, triunfaram. Custará muitíssimo a Duhalde manter sua liderança no partido e seus sonhos de voltar à presidência desapareceram quase que por completo.
Enquanto isso, a boa imagem do presidente e de sua gestão, a crise que atinge os partidos de oposição ¿ que continua muito fragmentada ¿ e a capacidade do governo nacional de distribuir recursos aos governos provinciais e locais foram mais decisivos do que a lealdade ao Partido Justicialista, à tradicional apelação às figuras emblemáticas de Perón e Evita e do que o compromisso com os antigos caciques do peronismo. O outro perdedor peronista foi Carlos Menem: apesar de ter conseguido uma cadeira de senador, perdeu em sua província. E, a essa altura, sua capacidade de recuperação é ínfima.
Em terceiro lugar, vale ressaltar a vitória de uma coalizão nova de centro-direita nas eleições para deputados na capital federal, Buenos Aires. O vencedor é o milionário Mauricio Macri, que se consolida assim como um dos potenciais rivais de Kirchner no pleito presidencial de 2007.
Nos próximos meses, veremos a reação do governo a este novo cenário. Uma possibilidade é o desejo de seus aliados: a continuação das políticas de Kirchner, mas sem complexos de inferioridade. A outra, é o temor dos detratores do ¿Pingüino¿: a consolidação de tendências hegemônicas, com ares de superioridade.