Título: O futuro à espreita de Kirchner
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 25/10/2005, Internacional, p. A12

O presidente argentino Néstor Kirchner, do Partido Justicialista (PJ), legitimou seu poder nas eleições legislativas de domingo e reafirmou sua popularidade para encarar, nesta segunda metade do mandato, os desafios de solucionar graves problemas sociais e unir peronistas e a centro-esquerda em uma só força. É um protagonismo, mas não um monólogo. Na ponta opositora, ganhou brilho o ex-presidente do clube de futebol Boca Juniors, Mauricio Macri, eleito deputado pela capital, Buenos Aires, com 33,92% dos votos. O líder da aliança Proposta Republicana (PRO) é apontado por alguns analistas como a alternativa viável ao ''kirchnerismo'' no pleito presidencial de 2007. Entretanto, o cenário político ainda é incerto.

- A idéia de que a Argentina caminha para um novo bipartidarismo entre uma coalizão de centro-esquerda comandada por Kirchner e outra de centro-direita liderada por Macri é prematura - alerta ao JB Rosendo Fraga, diretor do instituto de análise política argentina, Nueva Mayoría. - A realidade é que o presidente só pode se considerar de centro-esquerda no âmbito dos direitos humanos. E o triunfo de Macri não pode se projetar nacionalmente, pois carece de uma estrutura partidária extensiva. O PRO só tem representação em quatro dos 24 distritos. Além disso, historicamente a capital gera fenômenos políticos diferentes do cenário nacional.

Kirchner se valeu da indubitável vitória de sua mulher, Cristina de Kirchner, na escolha para a primeira vaga do Senado na província de Buenos Aires - o maior colégio eleitoral do país. A primeira-dama obteve mais do que o dobro (46%) de votos de Hilda ''Chiche'' de Duhalde, mulher do ex-presidente Eduardo Duhalde, que ficou com 19% de apoio. Ambas se elegeram, mas foi um claro recado dos eleitores que produzem 80% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional: entre as correntes kirchnerista e duhaldista do peronismo, preferimos a do presidente.

- Começou na Argentina uma etapa de renovação de dirigentes - comemorou Cristina.

Este foi o primeiro teste nas urnas desde que ''el Pingüino'' assumiu a presidência, em maio de 2003. O líder conseguiu manter o controle do Senado - com 40 dos 72 membros -, mas não teve maioria absoluta Câmara de Deputados, que renovou metade de seus 257 assentos.

Desde ontem, Macri - que derrotou o oficialista ex-chanceler Rafael Bielsa - deixou claro que a Câmara é pouco para suas ambições e já falava na necessidade de criar um pólo anti-kirchnerista, para o qual conta com seu sócio político, o governador da província de Neuquén (Sul), Jorge Sobisch.

- A oposição tem que mostrar às pessoas que é uma alternativa para que a Argentina siga adiante - afirmou, ainda que não tenha se anunciado presidenciável.

- Os triunfos opositores na capital (Macri), em Santa Fé (Hermes Binner), Neuquén (Sobisch) e em San Luis (o também ex-presidente Rodríguez Saá) mostram que a oposição existe, ainda que esteja dividida e que não esteja claro de que maneira vai se organizar - adverte Fraga.

Na opinião do analista político, o presidente deve aproveitar que os opositores ainda estão tateando o futuro para arquitetar, o quanto antes, uma coalizão que facilite sua reeleição:

- Pode fazê-lo recompondo, sob sua liderança, a unidade do peronismo, hoje divido entre o carisma de Kirchner, a tradição de Duhalde e o liberalismo de Carlos Menem. Ou buscar alianças extra-partidárias para criar uma nova força política.

Apesar de sua mulher ter sido eleita na província de Buenos Aires, o segundo lugar foi uma derrota pessoal para Duhalde, já que a região é seu reduto eleitoral. Menem também sofreu uma perda moral em La Rioja, onde foi senhor por três décadas. No domingo, entretanto, amargou um segundo lugar nas vagas do Senado da província. Perdeu até em seu povoado natal, Anillaco.

Tirando proveito ainda da derrota dos adversários peronistas, Kirchner precisa se concentrar no combate à pobreza para dar mais identidade justicialista à campanha.

- No social, deve-se melhorar os salários, como querem os sindicatos, para evitar conflitos nas ruas. No plano econômico, o desafio central é a inflação, cujos efeitos se projetam socialmente. Hoje, dois em cada cinco argentinos vivem abaixo do nível de pobreza - conclui Fraga.